Contos

FOTOGRAMAS, por Quasilúnio

Durante a segunda guerra, os soldados só tinham tempo de ler as cartas uma única vez antes que elas fossem metralhadas por balas ou gotas de chuva. A batalha cuidava de assassinar, borrar caligrafias. Não havia jeito de preservá-las. As fotos também. Pouco a pouco a pessoa no retrato ia desaparecendo até que só restasse um papel em branco. Foi assim durante a primeira guerra, nas guerras antes dela, na segunda guerra e suponho que será assim nas próximas.

O momento em que um soldado ia ler uma carta era semelhante ao da última refeição do preso no corredor da morte. Era um momento solene. Era comum, em meio ao caos e destruição, ver um soldado lendo uma carta ou escrevendo da maneira que podia. A leitura era o pouco que restava de humano ou aquilo que mantinha uma lembrança de humanidade nas tropas. Essas epístolas eram mal escritas em papéis amassados e velhos, guardados nos bolsos de suas calças, dentro dos coturnos ou no fundo de seus capacetes. Feitas a carvão, lápis pequenos do uso, apontados à faca ou qualquer coisa que estivesse à mão.

Nos dias de recebimento do correio, grande agitação tomava conta da base militar. Seguido à ansiedade e inquietação um silêncio se instalava no acampamento. Nessas horas o tempo parava. Não havia bombas nem tiros. Não havia guerra. O horário da correspondência era o mesmo em todas as bases, então, uma trégua momentânea era concedida. Aliados e inimigos, liam com avidez o relato daqueles que lhes escreviam, tentando saber notícias sobre o mundo. Queriam palavras de consolo de suas mulheres. Fotos. Pingentes. Perfumes. Colares. Qualquer coisa que fosse externa àquilo. Que viesse de fora. Usavam esses objetos como amuletos, uma forma de não esquecer que lá fora ainda havia um mundo. Durante os bombardeios, eles seguravam esses objetos e fechavam os olhos. Alguns os deixavam ao alcance da vista e contemplavam aquelas miragens. Achavam que dali viria alguma resposta ou ordem de cessar fogo. Estavam doentes. Padeciam física ou mentalmente. A enfermidade da guerra até hoje não foi classificada. Atacava diretamente ao espirito. Durante a noite muitos deliravam. Tinham pesadelos terríveis e dormiam abraçados junto às suas cartas tiritando de febre. Era dura a vida no front.

Guerra, por exemplo, era uma palavra banida do vocabulário dos soldados. Escolhiam outras palavras, sinônimos mais leves: conflito, batalha, luta. Até mesmo front. Achavam que a musicalidade da palavra poderia suavizar o que estava sendo feito. Guerra não. No que escreviam para os seus parentes e amigos não se podia mencionar tal palavra. Frequentemente se via “Aquilo” nas cartas. Os soldados diziam que tudo “Aquilo” acabaria logo.

Grandes amores morreram na guerra. Alguns homens preferiam morrer olhando para a foto da mulher que amavam ou lendo uma última vez uma carta preferida.  Melhor que correr em direção ao inimigo atirando alucinadamente como os outros. Você estava ali, no campo de batalha, tentando se orientar em meio às explosões e cortinas de terra se levantando, virava para o lado e via um soldado olhando um retrato, dizendo juras de amor, beijando-o. Boom. Catapluft. Trá-tum. Fim.

A guerra traumatizava. Provocava amnésia temporária ou permanente. Nos casos mais graves alienação completa do mundo. O vulgar louco. Do soldado raso eram desconhecidas as estratégias e objetivos. O sujeito era mandado para matar sem nem saber o porquê. Eu era um pobre jornalista misturado com soldados mais miseráveis que eu. Vivi quase o mesmo horror que eles. Só não tive de matar. O que me salvou foi a câmera. Ela criou o distanciamento que me manteve são. Passava vinte e quatro horas por dia olhando através dela. A realidade chegava até mim filtrada por pelo menos cinco olhos: os meus óculos e as três lentes que compunham a câmera com que eu fotograva tudo que via. Me convenci de que estava num filme e passava os dias vendo o que me rodeava como se estivesse de fora. O aparelho permitia que eu registrasse a história sem fazer parte dela. Me subtraía da loucura. Estava ali apenas clicando.

Uma das táticas da guerra é o esquecimento. Deixar o povo atacado sem memória. Saqueava-se a cultura. Roubavam-se os documentos, os livros, mapas. Todo o acervo bibliográfico era levado e muitas vezes destruído. A história daquele povo era roubada. Hitler tentou fazer coisas parecidas. De repente, eles acordavam um dia e não sabiam de onde tinham vindo quem tinham sido seus heróis, nada. Depois vieram as lobotomias. As lavagens cerebrais. Apagar a memória à força. Mas esses métodos não conseguiram superar a amnésia pelos livros. O esquecimento era um veneno lento usado durante a guerra. Ia desconstruindo a identidade. Anulando o sujeito. Logo a nação não tinha mais de que se orgulhar. Não tinha mais nada a transmitir. Tiravam deles a capacidade de contar histórias e pior: a sua própria.

Em um lugar, no entanto, eles tentaram fazer isso. Foi após uma guerra esquecida. Do dia para noite o povo se viu sem passado. Foi preciso então inventar. Diante da falta de relatos e registros aquela nação se viu obrigada a inventar a própria história. E assim foi. Todos participaram da construção coletiva da narrativa. Algo lá atrás precisava fundamentar o agora ou o presente deixaria de ter sentido. Parece que o lugar se chamava… Como era mesmo? Ficava localizado em-                                                                                                                 (Diário de Vladimir Molotov, Leningrado, maio de 1943)

Relatório Final: O Paciente Hans Klaus, 34 anos, ex-soldado alemão, continua apresentando alucinações, lapsos temporais e crises de identidade. Ele modificou os acontecimentos e apagou de sua memória todos os crimes de guerra.  29 de fevereiro de 1946, Nuremberg, Hospital Psiquiátrico AllesBlank. Doutor Johan Herzog, médico chefe.


DESACONTECIMENTO, por Notaconcept

Esquece o nosso amor, vê se esquece.
Porque tudo no mundo acontece

[Acontece – Cartola]

Querida Joana, quando você abrir este bilhete, já meus trapos não estarão no nosso armário. Hoje pela manhã, antes de ir trabalhar, arrumei minhas roupas, engraxei meus sapatos, pus tudo em uma trouxa e me mandei. Meu coração continua em nosso lugar de origem, mas, estou me mudando para a Lapa. Não adianta me procurar na oficina, larguei o emprego, amanhã é sexta de carnaval, serei todos os homens mascarados da cidade, sem nome, sem endereço, sem mulher, solto.

Não pensei em nada enquanto deixava-a. Não era surpresa, mal nos falávamos nos últimos meses. Eu poderia mentir e inventar muitas estórias, muitas histórias, poderia contar mentiras boas e ruins. Falar mal de mim, falar mal dela. Poderia ter voltado para casa depois de bater meu cartão, esperá-la à mesa com a cerveja na mão e o cigarro me queimando a ponta dos dedos. Poupei-nos. Poupei-nos e creio que trouxe dignidade a um término que já aconteceu. Amanhã, quando ela estiver fazendo as unhas das madamas no salão, poderá dizer para as amigas que eu a deixei, que nem ao menos tive a decência de dizer que ia comprar cigarros e nunca mais voltar sem dar palavra. Ela dirá que a abandonei pelo carnaval, que a quarta de cinzas me trará com a chuva e os confetes para a porta de casa, cheiro do perfume barato das putas e com marcas de batom de cores sortidas pelas roupas, corpo marcado, lama nos pés, cigarro apagado e que, quando eu voltar, da porta mesmo, a vassouradas serei espantado.

Eu não vou voltar. Eu e Joana somos uma longa canção de oito minutos. Ao sexto e meio, a corda do violão arrebenta e o cantor precisa parar e respirar, há um intervalo e a música termina antes do fim. A retomada não passa de um suplício de  dois minutos em que alguém já desligou o rádio e não ouviu.  O quarto era em uma daquelas ruazinhas que fazem esquinas com a Riachuelo e ninguém lembra do nome, enrevedando (enveredando?) –me por Santa Teresa, sempre acharia o caminho de casa, seguiria de perto todos os mendigos, desocupados e bêbados daquela parte da cidade. Não precisava de nada além de uma cama, uma pequena cômoda , uma mesa que quiçá faria as vezes de escrivaninha e um espelhinho de rosto. Nada mais do que o estritamente necessário. De qualquer forma, o quarto seria apenas para repor noites de sono não dormidas.

Sexta- feira: capataz.

Não estou em fuga e nem me escondendo. Prefiro o desconhecimento alheio enquanto passeio pelos blocos da zona sul, bebericando a cerveja quente pelo buraco que abri na máscara preta. Ando ameaçadoramente com a boca e os olhos castanhos de fora.  Uma odalisca me perguntou se eu era de verdade, se entre eles havia algum criminoso. Quando você esconde um rosto para se tornar na pessoa que executa ordens, a última ordem, o natural é que as pessoas se afastem. Curioso é que tenha sido uma mulher. Depois que lhe inquiri sobre algum peso em sua consciência, a dançarina oriental subitamente ficou séria. Me hostilizou com um palavrão, fechando com uma praga: vai morrer de calor, mané!

As pessoas pensam que, quando um relacionamento teve o seu funeral atrasado, que não há sofrimento por parte (d)a pessoa que toma para si o papel de algoz. O ato de mover-se, após a constatação do esquecimento, do desfalecimento, do apagar das quenturas que se sente n´alma é algo tão ou mais doloroso do que a dor daquele que foi deixado. Eu queria rua e sabia que a rua estaria cheia de todas as pessoas, entupida dos mais fortes odores, suscitando as mais luzentes visões, dando uma prova de diferentíssimos gostos, incitando o tato. Vestido de negro usando um capuz, me coloquei como meu próprio capataz. A morte de Carlos e Joana, mais um copo de cerveja e seria à morte de Joana e Carlos. Tirei o capuz. Amor que morre em casa, erosado, ninguém matou. Nem eu, que saí de casa.

Sábado: Pierrot.

Acordei cedo. Ou melhor, não dormi quase nada. Boa parte da manhã, dona Lene tirou suas bugigangas do quarto entulhado, cheio de fotografias antigas, fantasias, figurinos e perucas, maquiagem e troféus. O quarto, o maior da pensão, cheirava a naftalina e perfume importado. Dona Lene um dia, tinha sido quase famosa. Um dia fora bonita. Após preparar todos os potes, recipientes, latinhas e tintas, sentei impaciente naquele banco torto, sufocado por tamanho peso de um passado que se encrusta em uma pessoa, frustrada. Espero ter deixado Joana a tempo, pro bem dela e para o meu.

Quando ziguezagueei pelas ruas, me vi, em um parque, enroscado por uma fita de uma saia, quando virei minha cabeça para olhar a dona, uma colombina. Colorida, perto de mim, o preto no branco. O pó branco no meu rosto começava a escorrer junto com meu suor para dentro da roupa, também, sem cores. Eu era um negro manchado de branco. Dos olhos delineados de preto com lágrimas também pretas, escorria um choro cinza. A colombina, tinha um olho verde e outro azul. Suas cores vibravam pelo afoguear da corrida entre as ladeiras. Ela riu, jogou um pom – pom cor de rosa para mim e gritou: um carnaval, é feito de pelo menos duas cores.

Domingo: Pirata.

Desta vez, somente a partir das cinco da tarde, quando via os primeiros tímidos indícios de um crepúsculo anunciado, saí.  Desta vez, alguns toques de cor: o colete e o lenço vermelho. A argola dourada de pressão na orelha. O prateado do cabo da espada na bainha da calça. Hoje, de cara para o mundo, resolvi enfrentar a vida: resolvi dar a cara a tapa. A única coisa que me escondia, era um tapa – olho que qualquer vento levantado, nem barba por fazer, eu tinha.

O destino desta vez fora a zona sul. Embora tenha resolvido aparecer, escolhi o local onde pudesse permanecer no anonimato. Se alguma foliã me perguntar o nome, quem sou, qualquer coisa, poderia inventar que sou o Pirata sem Barba Azul. Hoje, fiz parte da multidão, entrei por dentro dos blocos, senti mais calor do que antes, suei mais apesar de estar usando menos roupas. Falei mais, bebi mais. Fui mais feliz? Fui tão feliz como nos outros dias. No carnaval, todo bêbado infeliz, é feliz. É não, está.

Segunda-feira: Desfile da Escola de Samba.

Durante o dia inteiro, os preparativos. Precisava ocupar o meu lugar de direito, na ala após o carro alegórico que ficava atrás da bateria. Minha fantasia era pesada e tinha a ver com o enredo. Homenageávamos um dos maiores sambistas da cidade. Minha ala, era o carnaval de rua. Mimetizei todos os movimentos que deveria ter tido durante estes dias que passaram, sorri todos os sorrisos, dancei todo o samba, senti como pulsações cada batucar, cada instrumento fazia eco dentro do meu corpo. Não conseguia enxergar com as fortes luzes do Sambódromo em cima da avenida, a cada gesto cego, sentia-me desfalecer em um som.

Ao fim, senti uma mão delicada me apoiar, quando levantei os olhos, não havia ninguém, somente um pom – pom verde em minha mão esquerda.

Terça-feira: Malandro.

Depois do desmaio merecido, desta vez, dentro do meu quarto, já na pensão, acordei com os raios de sol lambendo as frestas da minha janela, a me despertar para o último dia da nova vida. Coloquei a roupa de Malandro, e desci. Vagueei animadamente entre a Lapa, a Rua do Lavradio, a avenida Mem de Sá e a Rua do Riachuelo. Passeei, andei, dancei, sentei e bebi por todos os cantos, desde a Glória até a Praça da Cruz Vermelha. Os pom-pons, um em cada bolso, me acompanhavam. De relance, avistei um olhar enviesado, um olho verde e um azul. Ao lado dela, uma beldade mascarada, uma mulher misteriosa, que tinha somente seus contornos dos olhos, castanhos cor de mel e da boca rubra, descobertos. O cabelo preso, com os cachos descendo em espirais pelo pescoço. Disse a colombina que ela deixou cair parte da roupa e ela disse que não. Sua amiga havia dado de presente para um homem.

Que homem? Não existia conexão entre nenhum deles, o capataz, o pierrot, o pirata, o folião e o malandro eram espécies completamente díspares. Além da minha figura, o que mais poderia ser visto como ponto de união entre estes homens?

Segui-as, convidado pelas mesmas, durante a noite. A cada hora, um estado de transe, de inconsciência, tomava conta de todos nós. A colombina desapareceu para o mar e, eu e a mascarada, andávamos a esmo chutando confetes sujos de urina e serpentinas rasgadas pelo meio-fio das ruas da Glória. Até os travestis já haviam se recolhido.

Pensei em trazê-la para a pensão. As mulheres eram proibidas para pernoite. Dona Lene dizia comandar uma casa de boa reputação. Além do que, enquanto vivesse, nenhum de seus moradores seria roubado dentro do quarto e mesmo ela, não gostaria de abrir mão de nada do que possuia. Dizia sempre que não havia trabalhado anos a fio nas melhores peças já escritas pelos homens para ver seus figurinos transformados em acessórios baratos da puta da esquina.

Dormimos juntos. Quando acordei, os cabelos esparramados pelo travesseiro, deixando nu o pescoço e   um sinal na  nuca me deram a certeza que não tive durante a noite ou a manhã. Era Joana. Joana havia descoberto tudo,poderia ter mandando me seguir, havia perguntado por mim em todos os becos e bares, foi colecionando o sal das lágrimas que deixei para trás. Desde que cheguei, não desfiz minha trouxa. Ela ficara guardada dentro do armário, que eu trancava e cuja chave guardava por dentro do carpete, assim que descobri um buraco ao pé da cadeira. Silenciosamente, abri meu armário e peguei minhas coisas.

Joana tinha o hábito de dormir com um braço fora da cama, sua mão pendia perto do carpete encardido e foi ali, ao lado de sua mão, que depositei meu derradeiro bilhete: Esquece nosso amor, vê se esquece.

Hoje, era quarta-feira de cinzas. Haveria outra pensão na Lapa, um barraco abandonado em Santa Teresa, um quarto e sala para alugar. Joana, eu não vou voltar.


NA CABECINHA DE UM PÁSSARO FERIDO, por SillyBee

De cabeça baixa, olhinhos fechados e o bico enfiado no peito, o pobre passarinho não parava de tremer. Era um ritual muito estranho e perverso que aqueles humanos estavam praticando, jogando sem parar um ser redondo de um lado para o outro. Eles batiam tão forte no coitado do bicho que ele saia chicoteando pelas paredes, fazendo um barulho estrondoso. Curiosamente, os únicos gritos que eram ouvidos vinham daquelas pessoas. Talvez o ser maltratado estivesse morto desde o começo!

Esse pensamento aterrorizou ainda mais a pequena ave. “Eles devem ter algo planejado para mim também!” ,desesperou-se. Afinal, tinha sido colocado naquele cubículo com tanto cuidado que só podia estar em algum tipo de capelinha. É preciso sair daqui, e rápido! Se não fosse aquela maldita asa machucada… ele nem teria sido capturado, em primeiro lugar. Bom, a única maneira de fugir era caminhando mesmo. Demoraria demais, mas se fosse com calma e sem piar pela grade, talvez conseguisse passar despercebido. Não daria para pegar atalho pelo chão, ou então seria esmagado por pés e cadáveres.

Mas a violência do ritual era tanta que o pássaro não conseguiu arrumar coragem para continuar. Aquela esfera subia e descia com tanta força que poderia matar um. O medo era tanto que o bichinho ficou paralisado, e sem conseguir fazer nada além de tremer mais ainda e se encolher na base da grade. Um olho fechado, o outro vigiando a esfera. Na verdade, olhando com mais atenção, ela não parecia ter sido alguém vivo… ainda assim, tinha uma baita força quando combinada com os pés humanos.

De repente, o grupo parou tudo. Todos se viraram para o passarinho, que chegou a conclusão de que a hora havia chegado – sem conseguir voar, pouca coisa valia à pena, de qualquer jeito. Fechou os olhos e se preparou para a faca, esmagamento, bala, qualquer coisa. Para a morte que não aconteceu.

Ele foi levado daquele lugar. Viu-se na rua, depois em uma casa. Lá, foi colocado em uma bonita gaiola, e água e comida foram servidas. Naturalmente, houve desconfiança, mas com a fome que estava, o pequeno ser não resistiu e arriscou.

Ele nunca foi envenenado. Na verdade, teve sua asa protegida e cuidada, e poucos dias já era possível voar pela casa. Ainda tinha algum receio de sair, mas é claro que voltaria para a sua família. Nem por isso deveria negar uma pequena estadia naquele lar, que se mostrou tão confortável e amigável! Todo mundo parecia gostar muito dele, e se preocupavam bastante com sua asa. Nunca deixaria de ser agradecido pelo que fizeram, e já planejava vir visitá-los de tempos em tempos – quem sabe, poderia até vir com os próprios parentes! Certamente as pessoas iriam adorar conhecê-los!


A ÁRVORE QUE DAVA FRUTAS DE OURO, por Lúmen

Havia uma floresta encantada no meio do Estado do Amazonas que se chamava Amô Rupî¹. Esse local era mesmo privilegiado, pois lá havia muitas árvores que davam vários tipos de frutas: banana, maçã, acerola, laranja, morango, manga, abacaxi etc., além de possuir abundância de madeiras: cedro, peroba, pinho… Todas de excelente qualidade. Ninguém se preocupava com nada, viviam muito felizes. Escassez era uma palavra ou situação desconhecida pela tribo. Conviviam com fartura por todos os lados.

As pessoas que viviam nesta floresta não tinham problemas em relação à vida: não se preocupavam com a alimentação porque todos trabalhavam em harmonia em prol da comunidade para conseguir o próprio sustento e todos dividiam o que produziam; não se importavam com as vestimentas, já que viviam nus e se divertiam bastante; também ninguém adoecia facilmente porque os mais velhos tinham conhecimento medicinal das folhas e frutas; além de tudo eles tratavam muito bem os animais, respeitavam-nos por serem seres vivos e terem sentimentos semelhantes aos dos humanos.

Todos tiravam da Natureza apenas o que precisavam, desperdício era uma prática desconhecida. Só derrubavam árvores quando precisavam da madeira para construir ocas, canoas ou algum tipo de utensílio; fora isso todos respeitavam a Natureza. E respeitavam-na porque havia uma lenda, de tempos imemoriais, que dizia que qualquer desperdício ou maus tratos aos bens da Natureza sobreviria uma catástrofe em toda a tribo: a terra ficaria estéril; os rios, os mares e os oceanos secariam; do céu surgiriam bátegas² gerando dilúvios; ocorreriam terremotos, maremotos etc. Por tudo isso é que imperava o respeito entre todos: homens com homens, homens com animais e homens com a natureza… Esse “contrato” era passado de geração a geração.

As árvores davam frutas apenas na estação fértil, na primavera. Porém, havia uma árvore especial entre elas que dava apenas uma fruta, em todos os dias e em qualquer época do ano. Essa fruta era especial porque era de ouro! Portanto, não era comestível. Essa árvore era conhecida como a “árvore que dava frutas de ouro”. Era a única no planeta. Ela dava ouro porque o solo de Amô Rupî era rico em reservas de partículas desse mineral (ao contrário do que acontecia em outros lugares do mundo ― daí o nome do lugar ― em que o ouro era abundante em terras áridas, inóspitas e inférteis). O processo pelo qual a árvore gerava ouro era simples: sua raiz ao absorver a água vinha junto com as partículas de ouro. O metal fluía transportado pela água no sistema vascular e ficava depositado no interior de suas células. As frutas eram pequenas do tamanho de amoras e a concentração de ouro era de praticamente de 100%.

Todos os habitantes dessa floresta tinham consciência e inconscientemente um combinado entre eles: como diariamente nascia uma fruta de ouro, cada pessoa diferente tinha o direito de pegá-la, do mais velho, passando pelo jovem até a criança. Como não se podia destruir, nem desperdiçar nada, maltratar essa árvore então… Nem pensar!

Os habitantes ao recolherem as frutas de ouro apenas guardavam-nas como muiraquitã³ e não como moeda de valor em escambos. Essa prática que eles faziam com outras tribos era realizada somente com frutas comestíveis.

Semana de festa.

Chegou o dia em que as tribos do Amazonas resolveram fazer sua confraternização. Essa festa ocorria em espaço de tempo muito extenso: de cinquenta em cinquenta anos. Com isso muitos só participavam dela no máximo duas vezes. Esse encontro servia para que eles trocassem informações de suas tribos, relatos cotidianos e histórias através de porandubas⁴ e marandubas⁵. Dentre os índios de todas as idades as crianças eram as mais beneficiadas, devido elas aprenderam muito com os mais velhos e com isso levarem um bom legado à diante.

Aconteceu que um dia, após a confraternização numa dessas festas entre os moradores de Amô Rupî com os de outras florestas várias pessoas tomaram conhecimento da “árvore que dava frutas de ouro”. Houve encantamento total entre os presentes.

Uma pessoa com falta de caráter, gananciosa, quis ter uma árvore igual em sua própria comunidade. Então ela planejou como faria para conseguir isso, como chegar até lá, pegar um galho como muda para plantar em sua floresta, vê-la crescer e também dar muitas frutas de ouro. Ela pensou que essa árvore era igual às outras: pegar uma muda, plantar, regar e gerar outra… Mas não era!

Esse índio ficou imaginando como faria isso. Este seria o último dia da confraternização. Pensou, pensou… E teve uma ideia: esperar anoitecer para colocá-la em prática.

Quando anoiteceu, todos dormiram, ele adentrou de mansinho onde estava a árvore que dava frutas de ouro, quebrou um galho, juntou-o a outros galhos que recolhera e levou-o para sua floresta. Plantou-o com muito esmero na mesma madrugada. Sua ansiedade era tamanha que não quis perder tempo. Fez tudo rápido e escondido, tudo com um imenso desejo e inveja de querer ter uma árvore igual. Só que essa pessoa esqueceu-se de que as árvores brotam espontaneamente, com amor, livre e não forçosamente, por desejos gananciosos.

Quando amanheceu, os moradores de sua tribo nada perceberam de novo. Já em Amô Rupî os de lá perceberam que havia algo de estranho no ambiente… Foi quando um indiozinho viu a árvore murcha e avisou ao seu pai. Logo em seguida a tribo ficou sabendo da tragédia. Todos se entristeceram ao ver a árvore murcha. Notaram que ela estava com um galho quebrado e essa situação era sentida com muito pesar por todos os habitantes da floresta, inclusive os animais, como que se faltasse algo, um pedaço de membro no corpo de cada um deles.

Na floresta nada aconteceu, não alterou nada em relação à Natureza, apenas a árvore que dava frutas de ouro é que deixou de existir. Agora… Com relação à pessoa que roubara um pedaço de galho ela não conseguiu levantar-se da rede em sua oca quando raio o dia porque tinha adoecido. Seus amigos lhe deram várias mezinhas⁶, mas de nada adiantou… Ele piorou e em poucos dias faleceu.

Após a morte desse índio foi que um idoso descobriu um galho diferente plantado no quintal dele. Como ele desconhecia esse tipo de planta em sua tribo pôde chegar à seguinte conclusão: esse índio deveria ter mexido em algo em que não lhe pertencia, desobedecendo, assim, a alguma regra e tendo como resultado a sua morte.

Se aquele homem não tivesse mexido no que não lhe pertencia, todos estariam vivendo muito feliz, inclusive o índio intrujão.

Vocabulário

¹ Amô Rupi “pelo contrário”, “ao contrário, diferente, de outra maneira”; variar (verbo) ― GONÇALVES DIAS. Dicionário da língua tupi. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1970. (1858 primeiro lançamento).

² bátega S. f. de origem desconhecida. Pé d`água, chuva torrencial. HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa – versão 1.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

³ muiraquitã (do tupi-guarani muirá = ibirá, ‘árvore’, ‘madeira’; antã, ‘duro’) – Brasil. Amazônia. Artefato talhado em pedra (esp. jade, pela cor esverdeada) ou madeira, representando pessoas ou animais (rã, peixe, tartaruga etc.), ao qual são atribuídas as qualidades sobrenaturais de amuleto; pedra das amazonas, pedra-verde. (Era usada pelas amazonas e por elas presenteado aos visitantes). ― CHIARADIA, Clóvis. Dicionário de palavras brasileiras de origem indígena. São Paulo: Limiar, 2008. / HOUAISS,Antônio.

⁴ porandubas (do tupi. pora’nduwa, ‘notícia, pergunta’ [poro, ‘gente’; endu{ba}‘ouvir, sentir, perceber’) é a história narrativa oral entre os índios do Brasil; conjunto de histórias que passam de geração a geração, sobre a origem da tribo, seus efeitos, atos de heroísmo. ― CHIARADIA, Clóvis.

⁵ marandubas ou moranduba (do tupi mora’nduwa, ‘notícia, novidade’ [mará‘desordenar, barulho, guerra’; anduba, ‘notícia’ ― moro, ‘muito’, andu, ‘notícias’, aub, ‘fantástico, ilusório, histórias fantásticas, fábulas’ ou ainda andug, ‘sentir’, anduba, ‘sentido’] p. ext., ‘enredo, intriga’) é a história ou relato oral sobre guerra ou viagem; mesmo que literatura de viagem. ―CHIARADIA, Clóvis. / HOUAISS, Antônio.

⁶ mezinha – S. f. latim. medicína,ae,‘arte de curar; medicamento’ – Medicamento caseiro, qualquer remédio. ― HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa – versão 1.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.


A OUTRA FACE, por Bluebird

VIDA RECLUSA

Lá está o portão azul, grande, enorme, cinco metros de largura por cinco de altura, todo feito em ferro, intransponível; diante de famílias que choram a dor da separação. Do lado de dentro, muitas jovens mulheres marcadas para o mundo, viverão um eterno rótulo. Algumas são diabólicas, outras caíram do céu. Todas condenadas.

É fácil parar dentro de uma prisão e muito complicado sair dela. É um local de fácil acesso, mesmo assim ignorado por muitos que buscam vida fácil. Quem entra ali percebe a angústia daquelas que foram arrancadas do convívio social, por não seguirem o modelo padrão.

O cárcere feminino possui características específicas: o número de visitante é bem pequeno, a maioria mulheres. Mães no desespero da saudade ou filhos na expectativa de um abraço materno. Ao adentrar o primeiro portão, o visitante é obrigado a passar por um detector de metais, em seguida uma revista minuciosa nos pertences e a corporal. Após a segunda entrada, uma escada com dois lances de degraus, lá em cima mais portas de ferro e grades.

Atrás das grades um pátio de visitas, também utilizado para oficinas de teatro, dança de salão, artesanato e igreja evangélica. No canto esquerdo outro portão de ferro, impede a entrada para corredor que separa as celas do lado impar das celas do lado par. Sempre que a funcionaria abre, a pesada entrada, o barulho chama atenção das internas, e elas espiam curiosas, os olhos espantados dão colorido a fenda na porta do seguro (que elas apelidaram de “Big brother”).

Um pouco mais adiante o que era uma cela foi transformada numa pequena biblioteca, onde as presas pegam livros para, como dizem, ocupar a mente e não deixar chance para a oficina do capeta. O espaço também é usado como setor de educação, sala de vídeos, aulas de alfabetização e inglês, cujas professoras são duas detentas, uma brasileira e outra alemã respectivamente.

Do outro lado do corredor há outra cela que virou setor de custodia, e acomoda, também, o curso de corte e costura e um salão de beleza. Apesar de tudo, são mulheres vaidosas, cuidam dos cabelos, das unhas, pele, em fim, se preocupam com a beleza.

Um quinto portão de ferro é aberto, estamos entrando no primeiro acesso, vemos mais quatro celas de oito metros de largura por dez metros de comprimento, quatorze beliches feitos em concreto e vinte oito colchonetes, cada uma deveria alojar vinte e oito mulheres. Porém, diariamente mais meninas são condenadas, aumentando assim o efetivo carcerário para trinta e três garotas por alojamento que terão de dividir dois banheiros e dois chuveiros, frios.

Algumas dessas meninas aquecem a alma com outras alucinações, exemplo de dupla condenação. Outras fazem tudo para trabalhar dentro da cadeia, seja lavando e passando roupas das colegas, participando de algum curso ou se candidatando a “faxina” remunerada.

Finalmente a sexta porta de ferro se abriu, o cenário se repete em todos oscômodos observa-se o mesmo cenário. Mulheres saem para o banho de sol, que é realizado num pátio sem cobertura, envolvidas por grades. Lá, elas andam de um lado para o outro com as mãos cruzadas nas costas, combinando, quem sabe, uma possível rebelião. Enquanto a família já não tem mais lágrimas para chorar, tendo de levantar às quatro horas nos dias de visitas, para encarar a fila do lado de fora do enorme muro cinza.

FILHAS DO CÁRCERE

E aquele formigueiro humano andava de um lado para o outro, sempre em pares ou em grupos, num frenético vai e vem, como nuvem negra de um estúpido temporal. Entre um relâmpago e outro, a imagem de um rosto angelical se iluminava com os flashes.

Ao me aproximar daquela mulher com ar de criança, de olhar triste, desbotado; negra como oitenta por cento da população carcerária. Vi que uma dor profunda a levava além do choro, em sua aura uma dor maior borbulhava-lhe pelos poros, e ela chorava um lamento que me remeteu a Castro Alves. E fui para casa com o navio negreiro no pensamento e chorei, embalado pelos mares que tantos negros receberam.

No dia seguinte durante meu plantão de rotina no setor de educação, fiz uma senha para aquela interna que segundo a “faxina” da biblioteca chama-se Sema. Ao chegar, Sema me contou que era nova naquela unidade prisional, chegara a um mês, veio transferida da creche de outro presídio, aonde foi ganhar seu bebê.

Voltei no tempo em que trabalhei numa creche prisional, e notava que apesar da singeleza das crianças, percebía-se tristeza nos olhos delas, um sorriso preso, sem graça, opaco, que despertava estranhamento, talvez por não verem pessoas diferentes.

O primeiro desejo da mãe presa, assim que nasce uma criança na creche, é que seu filho seja levado dali antes de entender que já nasceu preso. E quando chega a hora da separação, o que essa mãe sente é insuportável. É como se fosse perder seu bebê para sempre, ou nunca mais puder abraçá-lo. É uma dor de pensar nunca ser amada por seu filho. Vive um imenso paradoxo.

Sema confessou que engravidou no parlatório – visita íntima, dentro do presídio masculino, onde seu companheiro está preso. Surpreendeu-me ainda mais com a ironia do destino, ao dizer que seus pais, já falecidos, também estavam presos quando se conheceram, e ela fora concebida numa, dentre tantas as visitas íntimas que sua mãe fizera a seu pai quando estiveram presos. E nascera naquela creche em que deu a luz, e odiou seus pais por isso. Hoje, ela se diz saber o que sua mãe passou, e relembra o abandono que viveu depois que saiu da creche. Com o passar do tempo foi obrigada a ganhar as ruas, e cresceu de delito em delito até acabar na prisão.

O PÁTIO DO AMOR

Quando eu disse que ela tinha história para escrever um livro, reagiu:

– Não tenho domínio das letras, aprendi a ler e escrever dentro desse inferno, foi a única oportunidade que tive. Minhas heranças são as ruas e a prisão! E depois, pra que vai servir o livro de uma presa? Quem vai ler o diário de uma vagabunda?

– Ora, para saber a verdade sobre o que pode levar uma mulher tão bela a cair nessa armadilha e perder o que tem de mais precioso, que é a liberdade. E que isso aqui não é um paraíso encantado: ao contrário, o massacre impera.

Ao terminar essa fala, uma voz grave, vindo do corredor, adentrou no nosso espaço:

– Bom dia! Com licença colega! Ô figurinha difícil de encontrar, hein dona Sema Afrênio dos Mistérios? Já andei a cadeia toda a tua procura. Preste atenção, eu estou vendo que você está conversando. Pode continuar. Quando terminar, passa na segurança para tratar de um assunto de seu interesse.

Colega, cuidado com esses rostinhos assim, como o da Sema. É só a carinha de anjo, na verdade, é a própria maldade materializada, conheço bem essas feras. Estou há muitos anos vigiando essas arquitetas do crime, cada passo, cada olhar. Sou capaz de ler seus pensamentos quando estão tramando algo. Esses olhinhos tímidos, com a sensualidade da pele suave e o brilho da jovialidade, esses corpinhos esculturais em curvas barrocas, perfeitas, convidativas, são chaves da cadeia! Minha obrigação é não permitir a realização dos desejos delas, que é fugir. Elas pensam nisso vinte e quatro horas, maquinando cada detalhe, estudando os funcionários, tentando encontrar um ponto vulnerável, uma fresta, uma fraqueza, um corrupto.

É Sema, o tempo passa adormecendo os segredos que nem sempre são enterrados com o corpo. Veja você que numa época não muito distante, eu estava de passagem numa outra unidade prisional, e lá havia uma interna muito pacata, todas as “comédias” a esculachavam, ninguém a respeitava.

Para sustentar seus vícios, aquela mulher passou a fazer “correria”- venda de drogas de outra presa, para ganhar uns papelotes e não ficar na abstinência. Vejam vocês que ela vendeu para a chefona do presídio que, depois de cheirar tudo, disse que não ia pagar e ameaçou-a de morte caso abrisse a boca.

Na hora de prestar conta com a dona da droga, faltou dinheiro. Desesperada, ela pediu à “patroa” que esperasse até o final da semana, quando conseguiria o dinheiro com a mãe na visita. Mas naquele final de semana sua visita não pôde comparecer. E mesmo assim ela foi convidada para o desenrolo no “pátio do amor”. Como não estava com o dinheiro, levou uma surra de pensar que fosse morrer.

A semana passou, ela foi medicada, não denunciou ninguém na segurança e nem pediu seguro. No sábado seguinte, sua mãe, avisada por outra visitante, pagou com seu único dinheiro que havia conseguido com a catação de lixo.

Depois de pagar a dívida, ela voltou a fazer “correria”. O tempo passou como sempre passa. E numa bela tarde, durante o banho de sol, aonde as dependentes aproveitam o grande espaço, cheio de barreiras humanas para usar drogas, a “pacata vendedora” deu um papelote de cocaína, como forma de pedágio, para a chefona que não havia pagado da primeira vez. Sentaram lado a lado sob a sombra de uma árvore e começaram a usar o antídoto para abstinência. E aquela mulher, que era o terror de todas, não conseguindo a euforia ideal, exigiu mais, e quanto mais ingeria o pó pelo nariz, mais queria. De repente o sangue começou-lhe a escorrer pelo nariz, boca, seus olhos começaram a revirar e ela se acabou ali, com o cérebro cheio de pó de vidro misturado à cocaína.

Desde então, aquela presa pacata passou a ser respeitada, tornou-se uma das mais conceituadas lideres do tráfico interno. Houve uma sindicância para investigar e descobrir quem foi a responsável por aquele assassinato maquiavélico. Mas nada foi descoberto. Hoje, o tempo que tudo cura, trouxe aos meus ouvidos a verdadeira identidade daquela assassina, e a criminosa pode pagar por mais um crime.

É por essas e outras que eu digo, amigo: fique atento com elas! Bem, não quero atrapalhar mais. Desculpe-me a invasão e até a próxima. S., não se esqueça de passar lá! E lembre-se: vagabunda que se presa segura tudo que diz, até mais tarde!

– O narrador intruso se foi, deixando uma interrogação no ar. Percebi que a história contada por ele deixou Sema fora do chão. E engoli a pergunta: que segredo seria? Tentei quebrar aquele clima sombrio:

– Sema, não vista esse rótulo! O fato de você estar presa não quer dizer que seja uma vagabunda, não vista esse rótulo…

– Que rótulo? Quem tem rótulo é garrafa, retrucou-me amargamente.

– Eu quero dizer que você não tem esse estigma que alguns querem lhe dar. A sociedade é bem maior e se preocupa com você.

– Ah tá, tá de gozação comigo! A sociedade é insensata e hipócrita, humilha e isola os que estão abaixo da linha da pobreza, protege e reverencia os ricos. Eu sou um estorvo, um peso, um lixo…

– Você está se mostrando bipolar, eu não sabia que cultivava tanta revolta.

– O sufoco da repressão nos conduz do riso ao ódio num estalar de dedos. E agora me dá licença que eu estou cansada de “caô”, tchaw! Fica com Deus, tenho de agir minha vida.

Sena saiu visivelmente preocupada, parecia outra pessoa. Na semana seguinte, Sema não compareceu às aulas de dança, perguntei por ela a outras detentas, umas disseram que ela estava “chapada”, se recusou a sair, estava namorando, que não queria dançar… Mas a Melina, quando começou a falar com um olhar fixo, imaginativa, alerta, filosófica, parecia conhecer a fundo, os motivos da não presença de Sema:

– O cárcere é um ambiente nebuloso, nos obriga engolir as palavras, mastigá-las muito, filtrá-las para uma articulação neutra, leve, suave. Com isso o olhar é ampliado e os olhos conversam, se tocam. Nosso mundo é diferente do seu, mesmo sendo parte dele, o tempo por aqui passa mais lentamente. O passado desaparece e o futuro que certamente trará a nossa tão sonhada “lili” (liberdade), parece que nunca chegará.

O tempo vai passando e morrendo, junto, pedacinhos de vida se vão a cada instante. Sem alarido, choro ou gemidos, apenas a fisionomia tensa pela vergonha do que fez, pelo medo do que possa acontecer, não há lágrimas e impotente, esperamos o poeta que mergulha nos infernos para resgatar vidas…

Os olhos de Melina, enquanto narrava, já estavam lacrimejados, quando de repente uma confusão no corredor do segundo bloco de celas atraiu as internas. E elas corriam como que atraídas por um ímã. O tumulto foi causado pela briga de duas mulheres que lutavam feito gatas, por ciúme da namorada.

Outras presas saíam das celas laterais, feito um formigueiro se engalfinhando naquela bola humana, rolando pelo corredor, enquanto algumas condenadas vibravam e incitavam com nítido prazer em viver a cena.

Quando o alarme foi acionado e rapidamente a turma de guarda chegou, aquela bola se desfez como o retroagir de uma fita gravada. As duas que causaram a desordem foram conduzidas para “buques”, espaço para castigo, onde ficaram por quinze dias, isoladas do convívio.

Apesar de toda a balbúrdia, eu queria obter notícia da Sema, saber mais sobre os mistérios que a envolvia, mas os olhos molhados de Melina latejaram-me a memória e me surpreendi com o poder das palavras.


FIADO, por Dom Ramalha

Num subúrbio qualquer da cidade de Atenas, na Grécia.

— Fumando maconha de novo, Sócrates?

— Mãe! Eu já não pedi pra você bater na porta antes de entrar no meu quarto?

— Quando eu estiver na “sua” casa Sócrates, eu bato na porta antes de entrar.

— É, bem que o professor da eletiva de sociologia ontem disse que os regimes totalitaristas ainda estão por aí, disfarçados… e que é preciso combatê-los arduamente.

— Sócrates, meu filho, até quando você vai continuar com esse lixo?

— A eletiva de sociologia?

— Não, meu filho, com a maconha! Até quando vai continuar usando drogas?

— Ah mãe! Só você não sabe que os grandes gênios da humanidade usaram drogas também.

— Ah é! Então me diga o nome de dois desses grandes gênios, por favor.

— Sigmund Freud e Edgar Allan Poe, por exemplo. Eles eram usuários contumazes de ópio, a droga mais consumida pelos intelectuais do século XIX.

— Meu filho, primeiro: o Freud formou-se em medicina, uma profissão que dá dinheiro e um prestígio divino, não em filosofia; segundo: o Poe ficou órfão aos dois anos de idade, e logo em seguida, foi adotado por um rico casal que o colocou para estudar nos melhores colégios do Reino Unido. O pequeno Edgar aprendeu a falar o latim e o grego. Agora você, seu desgraçado, estudou a vida toda em escola pública, mal sabe o português, e do grego só sabe falar Φιλοσοφία e latim errare humanum est.

— Ah mãe…

— Meu filho, por que você não faz como o seu amigo, aquele que tem a omoplata larga?

— O Platão?

— Isso. Por que você não faz como ele e escreve uns livros também? Você só quer saber de conversações, de ficar bebendo cerveja com aquele pau-d´água do Críton e indo à praia de Mikonos, no posto 10, para ficar manjando os rapazes de sunga. Largue dessa vagabundagem meu filho…

— Vagabundagem sim! Fica o dia inteiro aí nesse facebook, dando uma de revolucionário, reclamando das mazelas e injustiças do mundo, mas não é capaz de ajudar a sua mãe em casa. O côco que você fez no vaso ainda está lá, boiando como uma gorda de maiô na praia. Já estou cansada de ficar dando descarga nas cagadas que você faz na vida Sócrates…

— Ah mãe, deixa de ser maluca!

— “Maluca”? Se eu falasse com a minha mãe da maneira que você fala comigo, no dia seguinte ela me daria cicuta com iogurte para tomar no café da manhã, seu ingrato.

— Ah, sai pra lá…

— E vem cá, já pagou os R$ 50,00 das cervejas que você bebeu fiado lá no botequim do seu Asclépio, na semana passada?

— Não paguei não mãe. Ainda tô devendo um galo pra ele. Mas o Críton prometeu que ia pagar pra mim.


EU ACORDEI TARDE, por Roxino

Eu acordei tarde, mas queria correr, queria sentir meu corpo vivo, queria ele funcionando perfeitamente, queria que tudo ficasse em silêncio e só existisse a pista, eu e Deus. Porém já era tarde e deveria buscar a roupa… Fazer comida…

Liguei para o Jonas, querendo informações. Decidi ir direto sozinho. Consegui pegar a roupa, consegui correr.

Meu primo me ligou preocupado, não sabia onde era a casa de festas.

Ele achou que por ser padrinho se faltasse ia “pegar”, nem sabia que tinha mais 11.

Procurei o Jonas ao chegar e sentei.

Mas em nenhum momento eu pensei na minha madrinha, nenhum momento. Até que minha mão foi balançada, até que eu a vi. Sabia que ela era bonita, mas não quanto. E eu não queria transparecer isto, ficar de boca aberta para ela. Teria que agir normalmente. Como agir normalmente? Eu não podia fazer isto.

Foi só a sua voz. Sua pele macia e seu sorriso e como ele é lindo. Mas eu não deveria está assim, eu não deveria está fazendo um conto sobre isto, a não ser que eu esteja envenenado, a não ser que a Letícia tenha ministrado em meu sangue alguma droga qualquer que não me deixou dormir direito na madrugada toda, que não me deixou correr pela manhã sem o seu rosto, que não me deixou estudar a minha literatura.

Sem ter outra solução eu me joguei, sem antídoto teria que buscar o meu modo de escorrer do meu sangue toda você. No entanto ela nunca vai saber, pois poemas não são bem recebidos por quem não ama; acho que já aprendi isto, meus poemas serão secretos, só a minha prosa, jovem e imatura, mostrarei.

Eu quero a Letícia, quero sair com você sem esta multidão de desconhecidos meus e conhecidos seus. Quero te levar ao cinema ou ao parque Lage, uma trilha no cristo redentor, ou subir na pedra da gávea.

Reconheço que não conheço a Letícia; posso está sendo um louco, um adjetivo tão comum aos escritores. Posso ser cobrado por meus amigos por isto. Não se faz mais contos a uma mulher. De qualquer maneira, eu ainda vou esperar sua resposta, pois o conto não vai chegar ao fim sem que você conte a sua parte da história.

A noite escorreu limpa e pálida, típica noite metropolitana. De minha laje posso ver a pista lá em baixo, posso ver a montanha mais pra cima. Sento nessa escuridão tão familiar e contemplo a paisagem. Eu só olhava… Esperando que ela me retornasse, mas ela não me retornava. Até que liguei, as palavras sempre são as mesmas, encenando uma coreografia já tão batida. E por que acreditar? Nunca houve motivo para isso. Eu sempre soube que ela poderia não passar de uma imagem. Mas eu ainda queria escrever esses últimos momentos.

Leu e me ligou. Eu estava em cima de uma montanha, em uma trilha nova, naquele momento consegui quebrar seu muro e entrar nela, entrei nas frestas dos meus poucos por cento de chance… E ela me ligou, mas não me encontrou. Vi sua mensagem:

Letícia bela…: Ai q droga!

Seu tel. ta dando fora

De área!

Na descida eu vi a mensagem… Liguei retornando, todo bobo, queria acreditar por um momento. E quando ouvi sua voz, novamente encenei as mesmas palavras, mas fui extremamente direto, mais direto do que nunca. Marcamos nos encontrar na lagoa. Ela morava em outra cidade. Morava bem distante… Tão, tão distante. Eu iria vê-la. Dois dias de espera são uma eternidade.

Eu: bom dia minha Letícia, que este primeiro

dia do ano seja de paz e da presença de Deus e

que vc saiba que em todo momento deste dia; tem alguém pensando em vc.

Letícia bela…: só d saber que tem alguém

pensando bem de mim já e um início

maravilhoso.

Já mais tarde do dia:

Eu: to com saudade de

Vc.

Letícia bela…: to querendo te ver, já to ansiosa já.

Eu: Me desculpe se talvez esteja te importunando…

Mas eu preciso

Ter certeza que vc

Existe.

Letícia bela…: kkkkkk to aki.

Eu: …

Letícia bela…: Eu existo!

Eu: ufa!

Na madrugada… Eu soube de uma aula de autoescola em que ela tinha marcado magicamente para o mesmo dia e horário que iriamos nos encontrar.

Não pude aguentar a notícia, fui direto malhar, deixar escorrer toda minha raiva por isso ter acontecido novamente. Novamente. Novamente? Novamente! Deixei escorrer tudo pelo meu suor. Cada gota descendo pelo meu corpo. Lembrava-Me novamente, novamente!

Sua aula foi boa, seus dias corridos e demorou a me responder. Fui muito rápido, fui extremamente apressado. Esquecido na correria dos dias sem fim . Ela não me respondia.

Eu: vc sabe que eu estou te escalando sem cordas, sem segurança.

Eu: sinto que a qualquer momento posso

Cair.

Letícia bela…: vai com cuidado.

Não posso te dar esperanças.

Não sei como está meu coração.

Faz pouco tempo que terminei um noivado

De três anos.

Eu: Vc conhece Pablo Neruda?

Letícia bela…: sim.

Eu: Clarice Lispector fez uma entrevista em 1969 a ele e perguntou: “vc já sofreu muito por amor?” Ele respondeu: “ já e quero sofrer muito mais”.

Letícia bela…: nossa!

Eu: reconheço o perigo, mas não posso descer, e nem quero. Qualquer coisa eu te transformo em literatura.

Eu: me arranja um dia na sua agenda.

Letícia bela…: Vou ver sim!

Eu: RS rs. Vc é muito ocupada.

Letícia bela…: rs ocupada mesmo.

Depois ouvi sua voz por poucos momentos, deixei passar. Mas logo eu a precisava ouvir mais uma vez. No entanto os dias se foram e eu pensei quem era essa tal Letícia bela que se mostra pra mim? Talvez eu seja um chato, talvez eu seja um monstro. Talvez ela nunca tenha passado de um pensamento e eu estivesse sozinho andando para o altar. Realmente eu estava sozinho na verdade eu era o único sozinho naquele dia, e nem tenha percebido. Mas me custou acreditar que a Leticia bela era fruto de alguma febre, que não passava de um sonho e um pensamento. Se bem que eu tinha bebido um pouco naquela noite, porém ela me pareceu tão real… E as mensagens? Elas estão aqui no meu celular… Como isso é possível?

Eu precisava acordar eu precisava perguntá-la novamente se existia, se eu não estava sonhando. Então fiz outro conto. Contudo este não foi a ela; foi livre. Porém fiz a pergunta.

Ela me respondeu. Era como eu tinha imaginado. Era como sempre foi. Sua voz soou pelo fio de cobre muito diferente do que eu tinha sonhado, disse palavras em uma língua estranha, misturou realidade com ficção, quis ser verdadeira, dizer-me claro. Não poderia haver dúvidas, não poderia ser deixadas dúvidas para uma nova ligação. Foi mais ou menos assim:

—Gostei do conto, difícil não associá-lo a mim. Bem… Não posso me envolver com você porque há uma revolução na Ucrânia e eu preciso ir jogar uns coquetéis molotov nos guardas, e também vai ter copa do mundo e o aumento da passagem, tenho que derrubar e queimar alguns ônibus na avenida rio branco. Tenho que estudar para passar no fies do governo federal, não só isso, moro muito distante de você, o avião faz duas escalas e tudo, você é um cara legal, mas… Mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas, mas.

Quanto à resposta…

Não existo…

E quero permanecer assim…

Eu não quero existir para você.


O PULO DA NEGA, por Bastet Dorat

Sou livre. Adoro a vida! Gosto de viver intensamente sem regras, não faço nada por obrigação. A vida é muito curta para ser vivida acorrentada, trancafiada dentro de quatro paredes. Vivo sem limites, regras impostas podem nos envenenar, a rotina maçante tira o brilho da vida. Por isso, digo mais uma vez, sou livre! A noite me fascina, o céu negro se revela cheio de mistérios, enxergo melhor a noite. Durante a noite não temos disfarces, na densa escuridão revelamos nosso verdadeiro eu. Sou apaixonada pela lua com seu brilho prateado, espero por ela o dia inteiro… Se sou solitária? Claro que não! Tenho vários amigos, conheço a diversidade através deles, brancos, negros, pardos, magros, gordos, esqueléticos. Juntos somos um gangue que corre, salta, transa e vive impetuosamente. Temos o nosso código, a nossa linguagem e nos reconhecemos através dela.

Sou livre. Vivo intensamente! Faço o que quero, mas sei que toda manhã um colo aconchegante me espera, cheio de carinho, onde repouso e recupero minhas energias. Ao entardecer a liberdade me chama, e um novo ciclo se inicia. Sou livre! Sou Nega, sou uma gata.


O TRILHAR DO LABIRINTO DE QUEM SONHA, por Ana Oviedo

O passado daquela cidade era compartilhado em silêncio por todos os seus habitantes. Porvenir tinha as marcas do abandono, com calçadas imundas e ruínas de um tempo sobre o qual já não mais se falava. O fim do governo militar e a redemocratização recente obrigaram a vida a seguir muda, traumatizada. Dez anos de castração e sofrer impuseram o esquecimento. Não se conversava nas esquinas, nem mesmo nos bares, onde se sentavam senhores mal vestidos para tomar aguardente, mudos. Os dias passavam sem cor, as horas não faziam mais a menor diferença. Tudo era arrastamento. O cheiro constante de merda se misturava ao dos assassinatos e ao odor inconfundível da censura. Todos ainda se sentiam proibidos de sorrir e pensar em dias melhores. Futuro e delicadeza só sobreviviam, insistentes, no nome da cidade, que quase não era pronunciado por aquele povo sem esperança. Soava como uma grande piada, algo grosseiro e por vezes indecente.

Os bons tempos de Porvenir, destroçados pelo golpe, ficaram enterrados no fundo dos olhos entristecidos de sua gente. A liberdade de cada gesto, crianças correndo pelas ruas estreitas da pequena cidade, a procurar quem lhes oferecesse guloseimas, o cheiro de tomilho saindo pelas janelas sempre abertas, o som das cordas dos viajantes que ali paravam para descansar, oferecendo sua música como agradecimento, tudo virou parte de uma história distante e impronunciável. A alegria era apenas uma memória inútil, como uma marca de nascença que a gente esquece que tem. Nunca mais se ouviu a voz alta e esganiçada da vendedora de flores, que passava todos os domingos a cantarolar em frente às casas da avenida principal com seus cestos coloridos. Homens desaprenderam as artimanhas dos jogos, bancos de praça ficaram vazios e carcomidos. Os prazeres da vida besta de interior se adaptaram à escuridão, engolidos.

Soledad passou toda a sua adolescência acompanhada pelo medo. Antes de dormir, costumava pedir para acordar pequenina novamente, ocupando apenas o espaço do abraço dos pais. Preenchida por eles e pelos seus sonhos enormes, e nada mais. Foi uma criança feliz, gorda e destrambelhada. Vestia-se como um menino, de calças curtas encardidas pelas brincadeiras no quintal dos avós. Colocava tanta força nesse desejo que podia sentir o seu pulmão se contrair, como se prender a respiração pudesse fazer o tempo voltar atrás. Quase sem fôlego, se entregava à tristeza e chorava por longos minutos, até pegar no sono. As noites foram assim por anos e os dias não eram menos cheios de dor. Quase não saía de casa, temendo a abordagem dos homens fardados. Eram tantas as histórias de horror que só fazia o estritamente necessário na rua. Andava apressada e evitava olhar diretamente para eles, já que os seus olhos curiosos e amendoados podiam provocar algum tipo sobrenatural de fúria. Era sabido que os milicos liam pensamentos e tentavam apagar, aos choques, os que pareciam mais perigosos para a ordem insana que eles impunham. Na escola, só tinha dois amigos, que pouco via para além daqueles muros cinzentos. Era difícil florescerem relações no solo seco do pavor, aonde nem mesmo a primavera chegava. Porvenir já havia se transformado numa cidade cinza de ano inteiro, largada da amizade do sol e do vento. A solidão, marcada no destino da menina desde o batismo, foi, com o andar lento dos anos, esculpida em seu rosto.

Dentro de casa, as horas tinham que ser enganadas. Soledad passava muitas tardes costurando ao lado da mãe, que lhe contava histórias de grandes paixões. Tudo o que a moça entendia sobre o amor se resumia a esses bordados de outras vidas, a um só tempo tão estranhos e fascinantes. Ela não sabia, mas aquela foi a forma que a mãe encontrou de manter a chama do futuro acesa em seu coração. Distraída, sentia o fundo da alma se alargando, pedindo mais. Nesses breves momentos, sem perceber, acreditava na vida novamente. Tudo em volta parecia fazer uma espécie de sentido secreto. Era uma esperança velada, escondida debaixo da cumplicidade entre as duas. As paredes da casa desmoronavam e via pela frente um mundo cheio de cor, com pessoas como ela, nem altas nem baixas, um pouco cansadas, dançando e redescobrindo a felicidade que é estar junto na estrada, aos tropeços. Quando o pai chegava da companhia ferroviária, corcunda, as duas largavam os panos e tentavam tirar a mágoa do seu corpo com um bom banho e toques de alfazema atrás das orelhas. Um jeito inventado de comunhão, de participar do dia de trabalho exaustivo. Ele resmungava, repetia sempre a mesma indignação com um governo que só falava em progresso e explorava a sua gente, que não tinha o que comer e não podia abrir a boca para exigir o que lhes pertencia. E os três se olhavam, calados, um segurando o peso do outro na penumbra do quarto.

O curso da história seguiu como tinha de seguir, sufocando os desejos, fechando as portas, mantendo todos em cativeiro. Soledad terminou os estudos e decidiu enfeitar a vida das moças, como sua mãe fez com ela, de improviso. Não era uma senhora letrada, mas viveu tempos de prosperidade e contentamento, em que se podia fazer o que quisesse. Conheceu as mais variadas figuras, com suas lendas e manias. Cresceu na rua, cercada de motivações para a fantasia. Por isso, quando se viu obrigada a passar a maior parte do seu tempo trancada com a filha, arrancou da memória as vivências e desenvolveu uma capacidade quase inacreditável de criação. Crescida e com maturidade de manga arrancada do pé, Soledad escolheu dar aulas de literatura. Mudou-se para um colégio interno, católico e só para moças. Ali ficou por anos, distante da realidade, com os olhos fechados para a angústia que dominava cada esquina de Porvenir. Dias e noites era vigiada por freiras desconfiadas, que mais pareciam saídas do inferno. Lá, o rigor também era a linha que tecia relações. Não podia acordar um minuto após o estabelecido, as refeições eram sempre amarelas e frias e tudo o que ensinava era controlado. Às vezes, tinha a sensação de que até os móveis de madeira escura a observavam, com a cara fechada. Apesar do ambiente duro e da saudade que sentia do afeto dos pais, nas crianças encontrou grandes felicidades. Quando se sentia oca por dentro, vazia dos passarinhos que voavam do topo de sua cabeça até a pontinha dos pés quando estava contente, as meninas, com olhar doce e suavidade na fala, arrancavam dela sorrisos. Foi a maior construção amorosa que enfrentou. Construções se enfrentam, como um mar revolto ou uma tempestade. Como uma ditadura, que a tudo fere. Soledad era uma cicatriz.

Cinco anos de internato foram mais do que o bastante para ela. As vontades já não cabiam no olhar de reprovação das freiras e tentavam escapulir pelas janelas da casa de madeira, que rangia com as suas respirações aflitas. Acordava em sustos, vagava pelos corredores sem saber o que fazer. Tinha um mundo lá fora, um mundo dormindo. Ela queria acordá-lo, sacudi-lo. Caía em tonturas quando imaginava uma vida inteira passando sem grandes mistérios, sem soluções e folias. Ia ao quarto das meninas, admirava a inocência com que descansavam o rosto no travesseiro. Via a sua própria imagem ali com elas, miúda também. A mágica daquele lugar era deixar todo o mundo miúdo. Soledad virou criança de invenções, brincadeiras e contações de história, mas também sofreu de medo, um medo grande que toda criança sente. O escuro, a chuva, o bater de uma porta, tudo lá fazia o seu corpo tremer. Não queria mais ter alma frágil, precisava ficar desprotegida para aprender a resistir. Tinha que encontrar um jeito de engolir o frio. Sentia-se tão distante de tudo que vez em quando até chamava a si para ver se encontrava algum conforto. Ninguém respondia. A menina afobada e sonhadora tinha se perdido pelo caminho, desencontrada em meio ao terror. Restaram apenas os seus olhos amendoados, bem menos curiosos e repletos de nostalgia. Era hora de partir.

De volta aos desmandos do tempo, encontrou uma cidade devastada e sombria. Nem mesmo o vento conseguia por ela passar. Pessoas vagavam como fantasmas, de cabeça baixa, desistidas. Ela mal podia acreditar que o buraco afundara ainda mais, quando pensava ser impossível tristeza maior para um lugar. Lugar também fica triste, como gente. Em casa, reinava o silêncio. Os pais, diante da sua bruta ausência, calaram. Só o que se ouvia era o balançar da cadeira antiga que continuava no mesmo canto da parede da sala de estar. Viu-se mais uma vez sozinha, como se fosse eterna e repartida a solidão. Quis gritar, chacoalhar aquela situação estagnada de alguma forma. Pensou até em correr e enfrentar o poder. Imaginou heresias e crimes. Quis sair à praça pública, atear fogo em bandeira, tirar as roupas e pegar em armas. Não conseguiu. As pessoas corajosas nascem com um quilo de sol a mais dentro do peito, e ela tinha de menos. Seu coração era de lua, manso e aberto à melancolia. Só o que não queria era continuar ali, acompanhada por quatro paredes onde quer que estivesse. Dentro da sua cabeça se ergueram quatro paredes enormes, insuportáveis. Virar mártir talvez fosse um fim bonito demais para uma vida tão sem brilho. Aguentar o peso do entardecer era mais parecido com o que devia ser.

Muitos finais de tarde se passaram, idênticos. Soledad sentia o seu corpo atrofiar, os órgãos a se contorcer, embolados pela tristeza. As notícias que chegavam das ex-alunas eram poucas e acabou esquecendo a delicadeza de seus sorrisos. Tudo ganhou um gosto amargo, enferrujado. Até a sua vista cansou de ler. Estava a ponto de se entregar, como quase todos em Porvenir, mas sentia ainda um vagalume por dentro, piscando. Ela teimava em acreditar que o futuro não seria uma eterna continuação daquele presente desgraçado. Ouvia-se que o regime estava se abrindo, alargando as cordas todas. Já tinha tirado o suco que podia daquela gente, que perambulava a esmo, como bagaço. Cansaram-se, essa devia ser a explicação. Não havia pressão política nenhuma para que a ditadura acabasse. Porvenir era uma cidade invisível e sua gente não tinha mais força alguma. Cansaram-se. Um dia, com o mesmo amanhecer feio de sempre, acordaram todos com a notícia de que aquilo tinha acabado. Tão de repente que não souberam o que fazer. Estavam todos assustados com a liberdade. Paralisados, não saíram às ruas, não cantaram e nem caíram em gargalhadas. Não puderam reencontrar a esperança. Seguiram a mesma rotina submissa, de rabo entre as pernas, como se nada tivesse acontecido. A polícia continuava babando autoritarismo, só que com um pouco mais de esforço para limpar o canto da boca. A exploração era a mesma, a comida pouca. O dinheiro ainda brotava mais que do que as flores e em pouquíssimos jardins. Era um fim que não tinha fim. Devastação ampliada.

Porvenir se esqueceu do passado, mas Soledad não. Ela o tinha circulando nas veias, como uma tatuagem no espaço largo do sentimento. Juntou os cacos, reergueu os ânimos e foi em frente, dando de beber à ilusão. Certa manhã, se levantou em desatino, cismada. Era urgente o que tinha de fazer. Com tinta e pincel em mãos, se despediu dos pais, que apenas retribuíram com um olhar perdido. Andou pelas ruas mais vazias e cumprimentou desconhecidos, distribuindo sorrisos. Em troca, recebeu expressões de desconfiança. Seguiu sem rumo e chegou à porteira da casa dos avós, como se as mãos do caminho a tivessem puxado até lá. Admirou de longe aquele jardim encantado, onde conviveu com a paz, tão íntima das pequenas emoções. Entrou devagar, para deixar as lembranças à vontade. A casa estava caindo aos pedaços, mas ainda tinha o frescor de um paraíso inventado. Entre as árvores, encontrou a menina que foi. Ela estava feliz, suja de terra e goiaba. Sabia que um dia a encontraria. Não tinha se perdido, tinha cavado uma salvação. Ali mesmo, tirou os sapatos e botou os pés no chão úmido. Abriu espaço entre as folhas secas e chupou algumas amoras que ainda cresciam no meio do enorme deixar ao relento que era aquele terreno. Soledad era como uma daquelas amoras, fruta que arranca força da terra mais áspera para crescer. O amor que ela tinha pela vida era o mesmo amor escondido nos movimentos da natureza. Assim como mudam as estações, também se alterariam os ciclos do seu destino. Ela confiava. Descalça e com a alma arrancada de roupas, saiu com a lata de tinta para cumprir a missão que ganhou durante o sono. Algumas coisas inexplicáveis acontecem enquanto dormimos. Outras se transformam. Em êxtase, começou a colorir as casas mais escuras, as paredes mais descascadas. Pincelou muros e cercas, arrastando o braço sem sacrifício, como se deixasse um pouco dele em cada canto. No asfalto, desenhou quero-queros e bem-te-vis. Pega em saudades da florista, pintou um enorme cesto de palha cheio de rosas, com notas musicais saindo das pétalas. Toda rosa tem um som, mas a gente não tem ouvido de escutar. E o dia inteiro sentiu um calor profundo por ter descoberto como é simples o trilhar do labirinto de quem sonha. Achar a saída não tem importância. Voltou para casa tarde da noite e desabou na cama. Queria sonhar mais um pouco.

No dia seguinte, Porvenir despertou diferente. Pela primeira vez em dez anos, crianças, jovens e velhos estavam com a mesma idade nos ombros. A idade de um dia. Alguns parados nas portas, outros espiando das janelas, os mais espertos nas calçadas e os atrevidos no meio da rua. Todos espantados com os desenhos que surgiram no meio da noite. Acreditaram ser coisa de outro mundo, coisa feita dos anjos. Os anos de chumbo deixaram as cabeças todas inclinadas para qualquer tipo de crença, mesmo as mais inúteis. E, apenas durante o suspiro de uma breve manhã, foram de novo o povo alegre que ficou para trás, como um caroço de fruta que se larga sem dó. Falaram da vida de antes, do que queriam para o depois. Sem rancores, alguns pegaram a viola empoeirada, ensaiaram alguns acordes. Sorriram sem esforço. As moças tiraram as saias bordadas dos armários e foram pra roda dançar. O feitiço de Soledad virou a realidade do avesso. O ar circulou e as borboletas azuis, que eram conhecidas por lá como era o morador mais antigo, há muito sumidas, reapareceram. A semente daquela manhã foi a promessa de uma árvore frondosa no coração da cidade.


O FINAL DO CONTO, por Paulínio Souza

  Acordei naquela manhã com um raio de sol que incidia sobre meu olho esquerdo e que, começando a queimar, forçou o emergir da consciência do fundo de um sono bom. Ri-me da imagem de um arco-íris que me surgiu na mente e que me pareceu bela — apesar do sol, parecia estar chovendo. Inclinando a cabeça para o lado para poder abrir os olhos, dei com uma corrente de ar que trazia um cheiro adocicado conhecido. Uma nuvenzinha de vapor entrava por debaixo da porta do quarto. Realmente o banheiro ficava muito próximo. E a noiva tomava banho já há bastante tempo.

Pois bem: agora entendia que, em sonho, havia-me sido descoberto o final do conto que concebera fazia quase uma semana, mas cujo final — o final somente — permanecia um vácuo a ser preenchido. Todo o resto era rigorosamente o próprio ideal de perfeição da arte do conto fazendo-se matéria. E com que prazer eu não poderia deixar de me maravilhar diante de tamanho feito? Teria já a humanidade chegado tão próximo de ver materializado algo que se elevasse à altura mesma de sua capacidade de desejar? Perdia-me nesses sonhos que, agora, tornaram-se realidade. Lembrei-me de uns navios que um dia vi, muito longe, enquanto brincava em alguma praia do Atlântico: quando levantei os olhos da areia, dei com aqueles pontos misteriosos no horizonte da América… Pude agora ter certeza da resposta da pergunta que me perseguiu desde então: eles estavam vindo, e não indo, e era sim a primeira vez que aqueles marinheiros avistavam aquela terra onde eu brincava, não a segunda ou terceira; terra que ninguém além deles havia visto e que havia de lhes pertencer. Meu conto abria-me a porta para essas verdades que sempre persegui.

  Saí de minha casa: por algum motivo tive necessidade de ver meus pais e de lhes pedir perdão. Afinal a paz que estava prestes a sentir levava meus pés por aquele caminho que um dia percorri com lágrimas de ódio nos olhos, fugindo e buscando uma mulher, um emprego e uma casa para me fazer esquecer tudo. Agora percorria apressado o caminho em sentido contrário, buscando a reconciliação com os pais que deixei desamparados e infelizes.

As árvores sorriam enfileiradas pelas ruas, estendendo sua sombra generosa e benevolente sobre a multidão que caminhava apressada entre o ar quente estacionado no dia ensolarado e sem vento nem nuvens. Eu sorria de volta para elas, e para o arco-íris que suas copas densas escondiam. E olhava com complacência para a humanidade no seu fluxo colorido e rumoroso. Então era tudo simples, no final das contas. Quando se tem o final do conto, tudo revela sua verdade, que é muito simples, posso garantir-lhes isso.

De repente, senti que duas figuras me acompanhavam de perto. Com certeza, me seguiam, concluí em certo momento. Voltei para trás a cabeça e olhei-os nos olhos: eram dois homens vestidos de terno. Tinham ambos os cabelos pretos lisos e bem curtos, a ponto de não ser necessário penteá-los. A altura de ambos era parecida, assim como a fisionomia e o porte físico, no geral. A maneira de andar, de olhar (ambos retribuíram e me olharam igualmente nos olhos) e todas essas infinitas variáveis que podem ser observadas em alguém andando na rua a título de conferir-lhes particularidades, eram em ambos semelhantes, embora não idênticas. Entretanto, em nada causava estranheza a semelhança da dupla, a não ser depois do exame atento, especialmente após a constatação de que se estava sendo seguido por ela. Após aquela fração de segundo, virei a cabeça para frente de volta e continuei a caminhada.

Não demorou muito até que eles se colocassem a meu lado, sem qualquer tipo de cuidado ou receio. Pareciam, como eu, com muita pressa. Um deles falou: “Vós deveis vir conosco”. E o outro: “Vós sois o Salvador”. E o outro novamente: “Há pressa, não temos tempo a perder. Acompanhai-nos!”

Olhei para a rua, mas o tráfego de veículos era intenso, não poderia atravessar para o outro lado. “Não há o que temer, somos vossos servos”. “Mas se vós tentardes fugir, seremos obrigados a forçar-vos a acompanhar-nos”. “Não queremos, obviamente, usar desse expediente, pois deve ser vossa a escolha de submeter vossos servos”. “Olhai a pirâmide que se eleva a nossa direita. Esse é o vosso templo. Não queirais que se manche de sangue a soleira de seu magnífico pórtico”.

  Entrei naquele prédio comercial, no meio do vai e vem de gente atarefada e indiferente, com os dois homens, um de cada lado, escoltando-me. Tive vontade de gritar para toda aquela gente: “Eu tenho sua salvação! Um conto! Ajudem-me!”, mas eu encontrava-me completamente impedido. Por um momento, tive por ingratos todos eles; mas que culpa poderiam eles ter? Como saberiam eles que sua libertação dependia de que me libertassem daqueles dois homens aparentemente inofensivos? 

O elevador levou-nos para o décimo andar. Percorremos o labirinto de corredores até a porta de uma sala. Um dos homens falou: “Dizei a palavra sagrada”. O outro: “Se disserdes que não sabeis do que se trata, cortaremos vosso dedo indicador direito”. Respondi: “Não sei do que se trata”. Os dois mostraram-se calmos, embora dissessem: “Não deveríamos estar dizendo isso que estamos dizendo neste momento, dada a urgência da situação, mas esperamos que, talvez, expondo nossos motivos da maneira que estamos prestes a fazer, evitaremos que atrasos como este aconteçam no futuro. Assim, o tempo que estamos perdendo agora, poderá, talvez, ser recompensado, evitando que tempo seja perdido por razões semelhantes ou idênticas, mais à frente. A questão é que todo nosso esforço é no sentido de salvar-vos. Todavia, não seremos hipócritas a ponto de afirmar que é um impulso puramente altruísta que nos move, pois nossa salvação também depende de vossa salvação. Mas também não seremos desiludidos a ponto de dizer que não somos também movidos por uma espécie de amor absoluto e irresistível que nos atrai a vós e que nos obriga a termos uma consciência constante da força que mantém nossas pernas eretas, para que não cedamos ao impulso que incessantemente impele que nossos joelhos se dobrem e que nos lancemos prostrados a vossos pés em adoração extática, diante da contemplação de vossa beleza infinita, que nos dissolve e anula para, exatamente nessa dissolução, sermos mais vivos e únicos que nunca. Isso é necessário para que um dia nos vejamos finalmente livres deste estado de atenção e vigilância constante que temos que inevitavelmente manter para que o momento da salvação possa se realizar. Antes desse momento, toda nossa força deve ser empregada para manter nossas pernas eretas apesar do mistério de vossa sublime existência, e para conduzir-vos para o local do ritual, que vos preparará para tal momento. Temos pressa! O tempo urge! Dizei a palavra sagrada. Ela já foi dita por vós e agora deverá ser repetida”.

  Como não abrisse minha boca, um deles enfiou a mão por dentro do paletó, como que procurando um objeto. Vi as ondulações que sua mão produzia por debaixo do tecido com rapidez, sugerindo certa angústia, embora permanecesse impassível o rosto. Em pouco tempo, devolveu um punho cerrado ao ar livre, como se segurasse um objeto fino e longo. A princípio, pensei que esse objeto estivesse escondido entre os dedos dobrados firmemente, mas a julgar pelo modo como ele estendeu para mim sua mão fechada, posicionada como se segurasse, expondo para mim, algum instrumento com cabo, e juntando isso com a menção ao corte de meu indicador, comecei a pensar que talvez ele pudesse estar tentando me mostrar que segurava algum instrumento como uma faca ou uma navalha, para mim invisível.

  Um tremor gelado percorreu meu corpo de cima a baixo.

O outro me segurou por trás. Eu não tinha forças para resistir. De qualquer maneira, usei o pouco de ânimo que me acudia naquele momento para me debater, enquanto me certificava, com a evidente inutilidade dessa ação, a inevitabilidade da mutilação. A anulação de minha vontade pela superioridade de força do outro era confirmada a cada tentativa frustrada de me mover.

  Mas no transe do desespero, antes ainda do ato brutal, acabei por soltar um som de que não me lembro agora e de que não posso dizer exatamente se tive a intenção de emitir no momento, mas que provavelmente não estava de todo dissociado do pensamento, imagino. Quero dizer que não devia ser simplesmente um som qualquer… Ou melhor, definitivamente não era um som qualquer, pois a porta abriu-se imediatamente após o lançamento daquele som que me parece que vibrou pelos corredores, pois ainda posso ouvir seu eco nitidamente. Então só podia ser a misteriosa palavra sagrada, que continuou sendo um mistério.

Fui levado para o centro da sala completamente vazia e escura. A única janela estava coberta com folhas de jornais sobrepostas, coladas com uma fita adesiva larga. Havia quatro velas acesas, uma em cada canto da sala. Eram pequenas velas ordinárias, do tipo mais comum mesmo, de cera branca, daquelas que mais se veem nos pequenos lugares de adoração. Essas eram as únicas fontes de luz, portanto, além do pouco de luz que entrava pelas frestas da porta e da janela.

Havia um círculo branco desenhado no centro da sala; parecia giz, mas posso estar sendo levado a essa suposição pela noção geral que se imprimiu em minha mente de que tudo ali havia sido preparado do modo mais fácil e barato. O círculo, no entanto, era bem desenhado; certamente fora utilizado algum instrumento de medição para traçá- lo. Tinha cerca de dois metros de diâmetro. Em seu centro fui postado de pé.

  Os dois homens posicionaram-se fora do círculo. “Vós deveis ser purificado agora com o Primeiro Verbo”.

O outro foi a um canto da sala e trouxe uma velha bacia metálica, rasa e amassada. Enquanto ele se dirigia àquele canto, dirigi meu olhar com antecedência ao ângulo formado pelas paredes, onde antes não havia percebido nada e, com surpresa, notei a bacia que, apesar de fosca, ainda assim era capaz de refletir debilmente alguns raios de luz amarela. Tive vontade de verificar novamente toda a sala, mas estava muito absorto nos movimentos do homem que buscava a bacia, e na imobilidade do outro.

  O homem trouxe a bacia com cuidado. Estava cheia e precisava de muita concentração para que o conteúdo não se derramasse. Pousou-a finalmente perto da borda do círculo, externamente. O outro aproximou-se e ajoelhou-se com a bacia à frente. De seu lado, o outro fez o mesmo. Os dois murmuravam o que soava como um cântico. Havia uma preocupação em não profanar a sacralidade das palavras com a pressa com que eram ditas, mas eram ditas com pressa. Não pude distinguir as palavras do cântico; sequer pude discernir a língua a que pertenciam. Mas o fato é que em pouco tempo as preces foram terminadas e os dois mergulharam respeitosamente as mãos no conteúdo da bacia.

  Eles olharam para mim e disseram: “Este é o Primeiro Verbo. Aplicá-lo-emos sobre vosso corpo nu. Assim, ele será purificado”.

  Então ambos levantaram-se e adentraram o círculo em minha direção. Puseram-se logo a esfregar suas mãos por todo o meu corpo, que continuava vestido. Porém, tive a sensação inequívoca de que podiam tocar minha pele mesmo por sobre a roupa. Mais, sentia umidade em suas mãos, apesar de elas estarem visivelmente secas. Entretanto, simplesmente não podia negar que um líquido escorria por meu corpo até o chão. Esforçava-me por vê-lo, mas não conseguia.

Com certeza, pensei, fui hipnotizado, ou algo do gênero.

  Nesse instante, passou pela minha cabeça a ideia de tentar fugir, apesar de tudo. O que me levava a hesitar era a convicção ou suspeita de que não estava, certamente, em posse plena de minha capacidade de julgamento. E nesse estado, seria sábio tomar qualquer tipo de decisão ou atitude? Os leitores não hão de discordar de mim, posso afirmar com segurança.

  “Escutem, tenho uma grande missão a cumprir, carrego um enorme peso, mais do que às vezes acredito ser capaz de suportar. Da vida que pulsa neste corpo cuja superfície é tocada e tem cada ponto despertado por seus dedos mornos e úmidos depende a continuidade do homem na terra. Carrego a semente profética da revelação que fará o passado dobrar-se diante do poder humano para todo o sempre. A História chega ao fim, como todos sabem, e só com minha semente, que só a mim foi revelada e em meu corpo depositada, poderá agora o homem vencer o fim do presente, que se aproxima.”

Chorei ao dizer isso. Minhas lágrimas escorreram até o chão. Tive medo de verificar se elas eram visíveis, o que poderia, caso não fossem, levar ao mesmo problema do líquido da bacia. Porém, pensei melhor, e constatei que, se elas fossem visíveis, o problema seria o mesmo. De modo que, não olhar continuava sendo a melhor coisa a fazer, ou não fazer. Assim como não fugir. Aos poucos, fui me lançando ao que então se me afigurou, de início, como um delicioso exercício de não pensar. Depois, simplesmente um exercício de não pensar. Depois, simplesmente não pensar.

“Vós salvar-nos-eis somente. Nós três. Isso já foi decidido. Vós talvez não vos lembrais.”

O outro disse: “O Segundo Verbo agora será espalhado a vossa volta, no chão, dentro do círculo. Nele vós devereis fincar o Terceiro Verbo”. O outro foi a um outro canto da sala e trouxe mais uma bacia muito semelhante à primeira bacia. Quase idêntica, eu diria. Não que no momento isso me preocupasse. Contudo era necessário que isso fosse pensado, caso eu estivesse pensando naquele instante, pois poderia fazer algum sentido no quadro geral das coisas.

Quase da mesma maneira como da primeira vez, houve as preces cantadas em murmúrio calculadamente apressado e de joelhos. Agora, todavia, eles recolheram o conteúdo igualmente invisível da bacia e puseram-se a espalhá-lo como se fosse algo como um pó, por todo o meu entorno, dentro dos limites do círculo. Cobriram meu pé com o pó. Embora estivesse calçado, pude sentir a substância arenosa de grânulos grossos, secos.

Comecei a me sentir sufocado. Fazia calor e não havia circulação de ar naquela sala. Isso começava a incomodar. Não quis dizer nada, no entanto. Porém, um dos homens, certamente adivinhando o que se passava em minha mente, no mesmo instante, disse: “Está quente aqui. O sopro da besta adormecida trará o alívio do calor que vos oprime, propiciando-vos as condições para a realização do derradeiro ato do ritual: A Revelação do Grandioso Terceiro Verbo. Resta-nos muito pouco tempo. Devemos ser rápidos!” 

Ele correu até uma das paredes e abriu uma porta, que era a porta do banheiro. Lá, suponho, havia alguma comunicação com um duto de ventilação, assim como uma besta adormecida, que foi despertada pelo estrépito ruidoso da abertura de sua cova. Por toda a sala ressoou um ronco ao mesmo tempo profundamente ameaçador e lamuriento, carregado por um hálito fétido mas refrescante.

“Pois então: Revelai o Grandioso Terceiro Verbo! Não temos mais tempo! Revelai!”

  Na penumbra do banheiro vi agitarem-se os contornos de um desenho que ia se delineando e assumindo a Forma pura, inominável e indescritível, do Terror. Queria sair das trevas, e reunia suas forças para isso. O ronco ressoou mais uma vez, estremecendo o chão. Só que agora era o Som puro do Terror. Sem hálito, só o Som puro do Terror.

  “Revelai o final do conto! É a única salvação! Revelai o final do conto!”

  Não sei como, mas havia algum ar ainda em meus pulmões. Mais inexplicável ainda: encontrei ânimo para expeli-lo e fazer soar as seguintes palavras com amargura e honra: “Jamais revelarei a vocês o final do conto!”, acompanhadas de um gesto súbito que tirou de minha calça o final do conto e enterrou-o profundamente em meu pescoço, rasgando-o de um lado a outro e matando comigo meu segredo, para todos e para sempre destruído.


ALA 7, por Amora Plath

“Além daqueles trinta cadáveres, outros 1.823 corpos foram vendidos pelo Colônia para dezessete faculdades de medicina do país entre 1969 e 1980. Como a subnutrição, as péssimas condições de higiene e de atendimentos provocaram mortes em massa no hospital, onde registros da própria entidade apontam dezesseis falecimentos por dia, em média, no período de maior lotação. Á partir de 1960, a disponibilidade de cadáveres acabou alimentando uma macabra indústria de venda de corpos.” (ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil. Capítulo IV – A venda de cadáveres. Pág 76. São Paulo. Geração Editorial. 2013.)

  Primeiro vieram uns homens e falavam que a gente tinha que obedecer. Eu não concordava com aquilo, mas ali, o pensamento ficava só na cabeça mesmo porque o corpo, que era só corpo, fazia o que tinha de fazer. Uma velha segurava meu braço com firmeza e me colocou sentada. Olhei para o chão e vi uns tufos de cabelo sem vida. Não que eles estivessem com vida nas cabeças, mas no chão estavam mais perto de parecer lixo e coisa morta. Eram pretos, salpicados de loiro e alguns tufinhos ruivos. Eu amava os cachinhos vermelhos da Sônia. A velha falou:

– Fica parada.

Eu pensei:

– Nem fodendo.

Mas o corpo ficou imóvel. Aí eu ouvi a máquina trrrreeehhmmm e o cabelo caindo pintando o ladrilho de castanho claro. De repente me batia um vento gelado na nuca e não posso dizer que a sensação não era boa. Empurraram-me para fora dali. Coloquei as mãos na cabeça tentando escondê-la, mas ninguém se interessou por mais uma careca.

Esse era o dia da novidade no Colônia, veja bem, não é que a novidade seja boa mas a gente inventa coisinhas para o dia passar, a vida passar mais rápido. Que nem esparadrapo. Mas vida dói mais para sair.

Teve o dia da novidade-roupa-no-saco e todos ficaram excitados. A ala feminina estava em festa, tinha gente que nunca tinha tido uma roupa nova, tinha gente que sequer se lembrava de como era usar roupa. Eu peguei meu saquinho e demorei em abri-lo. Lembrei-me de mamãe no primeiro dia de escola:

– Não vai sujar o sapato, não pisa nas poças.

Ela tinha mania de cuidar. Naquela época éramos nós duas e o medo do Demônio vir. Ele vinha várias vezes durante o dia, hoje ele vem só à noite. Nós combinamos, num acordo tácito, dentro da minha cabeça, desde que mamãe se foi. Ele vem à noite, ninguém o vê. Quando acordo com dor de cabeça e espuma no canto da boca, sei que ele veio me visitar. Demoro mais deitada, finjo que estou um pouco enjoada, eles me dão um remedinho amargo. Às vezes perguntam para a Sônia:

– Ela convulsionou? –

A Sônia sabe que não é para falar:

– Não vi não.

E tudo fica bem. Sem choque, sem remédio que faz dormir por dias, sem exame que olha dentro da cabeça.

Cheguei aqui um mês depois que mamãe foi embora. Desfazendo o combinado que eu iria antes, um ônibus veio buscá-la em cima da calçada. Não foi culpa dela, talvez do motorista ou Deus, vai saber. Depois que colocaram quarenta e sete pás de terra em cima de seu caixão miúdo, tia Olga veio falar:

– Sobrinha, querida. Acho que você pode morar conosco até completar dezoito anos. O que acha?

– Está bem, tia. – Respondi meio sem querer.

Eu sabia que minha mãe não concordaria com aquilo, ela e Olga nunca foram amigas. Mas a obrigação de família fazia com que aquele convite fosse aceito. O medo do Demônio me fez aceitá-lo. E fomos os dois, eu com dezesseis, ele com quinze anos, juntos, para a casa da tia Olga.

Em treze dias ele apareceu trinta vezes. Parece que sabia que eu não queria ficar ali. Tia Olga nos primeiros dois dias me dispensou uma atenção até então escondida, eu a ouvia falar para as visitas:

– Tadinha. Perdeu a mãe e é tão doente, só tem a mim.

Depois das visitas do Demônio e de uma tia que às vezes fingia não ouvir meus gritos de medo, ela achou por bem me levar para um lugar que pudessem me cuidar melhor.

– É só por um tempo, você sabe que não consigo cuidar de você como sua mãe fazia. Eu tenho tentado mas os médicos do Colônia têm uma ala especial para casos como o seu. Você fica lá até melhorar.

No primeiro mês ela veio todo domingo. No segundo mês domingo sim, domingo não. Depois de seis meses não a vi mais. Ela disse na última vez:

– Seu tio foi transferido, mas não se preocupe, sempre que viermos à cidade viremos aqui. E tem as cartas, não deixarei de mandá-las.

Naquela hora o Demônio riu dela e tentou sair de mim. Eu o engoli de volta, desejei boa viagem e fui para a cama deixá-lo sair.

Depois da última visita da tia eu passei a ser mais uma ali que não era um. Que sequer era um número, estava mais para aquilo ou aquela. Roupas doadas que viraram farrapos. A agendinha que trouxe de casa e se acabaram as linhas. Depois passei a escrever acima do que havia sido escrito, fazendo de uma linha duas. Depois pedi um caderno novo. Depois passei a escrever nas paredes e depois que a loira alta com cabelo de codorna me deu um empurrão parei de escrever para sempre.

O Demônio vinha às vezes e causava grande comoção no meu setor. Realmente tinha um homem Dr. Não sei o que Figueiras que estudava esses casos, embora eu achasse que eu não passava de uma cobaia para os mais variados testes. Foram-me aplicados todos os tipos de exames, mas o que mais me incomodou foi um em que eles faziam o Demônio vir de propósito, com luz strobo nos olhos. Tentavam ler o que ele dizia com aqueles eletrodos que nunca dizem nada além de linhas tortas. Um dia perdi o medo e combinei com ele que nunca mais ele viria durante o dia. Quando sentia que ele estava vindo, deitava, me esforçava para que ele fosse embora, rezava para mamãe. Consegui. Sendo assim, me tornei desinteressante para o Dr. Figueiras e me transferiram para a ala das loucas que não são loucas ou ala das mulheres que estão aqui porque ninguém as queria mais.

Na ala 7 moram setenta mulheres. Sempre tem uma nova, que chegou há pouco e que não durará muito tempo também. É difícil ficar. Tem que ter estômago, atender alguns critérios, tem que ser, antes de parecer, o que é difícil. As famílias quando a consciência reclama, vêm buscar, e muitas de nós acabam trancadas em um quarto dentro de casa, tão solitárias quanto aqui, entre comprimidos e ondas de ressaca alta.

Conheci Sônia que veio simplesmente porque o marido arranjara uma amante e não sabia o que fazer com a mulher. Coronel do exército não foi difícil lhe arranjar um lugar no Colônia. Até hoje ouço o choro baixinho de quando ela chegou, os pedidos insistentes para falar com o diretor que nunca vimos e depois os olhos revirando quando lhe aplicavam uma daquelas injeções que deixam o braço roxo por dias. Hoje Sônia passa os dias deitada, esperando o tempo passar, alguém se lembrar, o marido se arrepender. Às vezes ouço sua voz:

– Não vi não.

E sei que ela viu, que sabe e que se importa. Só que é mais fácil não se importar.

Comecei a sentir que estava perto de ir para fora. Eu tinha vinte e sete anos e a aparência era de quarenta. Perdi dois dentes da frente, um em cima e um embaixo, numa dessas vezes que tentei segurar o Demônio dentro de mim. A careca e a magreza não favoreciam e depois de uma tentativa malvada de um enfermeiro, que só foi tentativa por causa do Demônio que apareceu e me salvou, passei a achar bom ser feia. Feia e velha. Feia, velha e maluca. 

No último dia no Colônia lembro de passar pela Sônia. Ela urinou e estava com vergonha. Tinha um banco verde de plástico, atrás de uma mesa também verde e também de plástico, e sentada no banco, quase de plástico também, estava Sônia: Mijada e envergonhada. As pernas cruzadas tentavam esconder o que ninguém se interessou em olhar: Uma marca escura crescendo na bermuda bege e os pingos de urina fazendo tlim-tlim na pequena poça. Ninguém viu, porque ninguém quis ver. As enfermeiras, no seu eterno procrastinar, se arrastavam esperando o turno acabar. Os outros pacientes da ala 7 passam e apenas passam. Cada um tem um mundo vasto, só seu para dar conta, e isso ocupa toda a atenção que são capazes de criar. Eu vejo, faz parte do meu mundo ver. Porém, é como tela de cinema, está na minha frente, quase posso tocar, mas não participo dela.

  Nessa manhã eu demorei demais para levantar, a fraqueza depois da visita estava cada vez maior. Quando a enfermeira cabelo de codorna pediu para eu olhar para uma luz de lanterna eu fechei os olhos e vomitei. E a Sônia sentada. A codorna, não se importando com a mancha em sua bermuda perguntou:

– Ela convulsionou hoje, Sônia?

Pegaram-me pelo braço, colocaram na frente da mulher. Ela olhou para baixo e respondeu quase que de forma inaudível:

– Não vi não.

– Mentirosa. Mijona e mentirosa! – Disse a enfermeira velha.

Sônia se encolheu ainda mais. Quase desaparecendo. Levaram-me, eu deixei, depois de um tempo eu passei a deixar. Não eu, eu, mas meu corpo, que sabe que tem que obedecer. A enfermeira me colocou na maca de metal frio. Quinze eletrodos, os que ficam atrás das orelhas são mais geladinhos. Fecho os olhos, já sei o que eles querem.

Dr. Figueiras entra na sala e dá instruções para a equipe que parece não ouvi-lo embora façam tudo que ele manda. Maquinalmente. Acho que é hoje que eu vou. O Demônio sussurrou essa noite que eu ia. É hoje e eu já sei. É hoje e eu deixei um pacote de biscoito maisena embaixo do travesseiro de Sônia. 

Carga um. Um tranco. Ok, é assim mesmo. Carga dois. Um tranco ainda maior, olha, estou em pé agora e vejo o bigode do Dr. Figueiras e ele é ridículo. Tranco três e um barulhinho que eu já ouvira algumas vezes. Parada. Ressuscita. Não, hoje eu não volto para vocês.

Ninguém fechou meus olhos e eu continuei vendo. Tudo bem que eu não estava ali-ali mas meus olhos ainda poderiam ver alguma coisa. E eu não queria que eles vissem assim, longe de mim. Fechei os olhos com força, eles continuaram abertos. Ficamos ali, eu e os olhos, eu e o corpo magro, eu e o ar com cheiro de mofo. Até que colocaram um pano branco branquíssimo, um papel em cima onde se lia “Universidade de Minas Gerais”. E eu fui. Eu e a Maria José que havia sumido um mês antes e ninguém deu conta. Fomos as duas para o Centro Anatômico da UMG. Eles sabiam que minha tia jamais reclamaria o corpo, havia um boato que eles faturavam uma grana alta com essas vendas. Eu estava achando divertido. Eu e Maria, Maria, meu corpo, nós três, indo para a Universidade assim, entrando pela porta dos fundos.

Um homem passou um líquido muito fedorento nos nossos corpos e eu sentia aquele cheiro nauseante e não podia fazer nada. Sentia o cheiro, mas não sentia o pedaço de gaze passando pelo meu corpo que àquela altura já estava frio e seco. Igual o cabelo que eu vira há uns meses sobre o chão de ladrilho. Igual a voz da tia Olga dando tchau pela última vez.

Ficamos lá, no escurinho. Maria dentro de uma caixa, picotada em pedacinhos. Eu ainda inteira. Os olhos abertos. E entrou uma turma, uns rapazes com cara de gente rica, umas meninas medrosas, gente que nem sabia da existência do Colônia. Ou até sabiam. Mas não sabiam como eu, não viam como eu, afinal, eu tinha dois olhos secos e dois olhos que viam além dos outros dois.

  Um mais velho se dizia professor e começou a falar de osso, e eu pensei que osso era uma coisa que eu tinha e muito. Todos eles. Saltando por debaixo da pele. Ele pega uma faca. Sinto um frio na espinha, nessa que eu tenho agora não na que está em cima da mesa, mas é como se fosse naquela. O tal professor passa a mão atrás da minha perna, faz um corte profundo. O corte não sangra. Sinto o corpo todo fibrilar. O coração começa a bater muito forte e eu, nossa, eu acho que eu vou.

Abro os olhos e vejo o bigode escroto do Dr. Figueiras. Não hoje. Ainda não.


FOFURESCO, por Malinalli

Um pequeno casebre de agricultores, simples, porém charmoso era o aconchegante lar de Mercedes, Cecília e Laura.

As três irmãs vivam no em uma pequenina cidade campestre, seu pai, um talentoso alfaiate, vivia na cidade grande trabalhando, regressava a casa apenas ao fim do mês, quando as meninas podiam suprir parte da falta que ele fazia.

As jovenzinhas não tinham mais a presença de sua mãe. Apenas conheciam a bela mulher de pele da cor do cacau apenas por uma fotografia que ficava em uma velha estante de madeira na sala singela de sua casinha.

Todos os dias elas brincarolavam até cansar, escolhiam a música em consenso e saíam a jogar ciranda no caminho até o rio que serpenteava floresta adentro, que se localizava perto da casa das meninas.

Chapiscavam água pra lá e pra cá, e foi no meio dessa algazarra que ouviram um choramingo diferente, tinha som de sininhos tilintando na água.

Mercedes foi a primeira a nadar até o outro lado do raso rio, de onde vinha o choro. Mas foi Laura quem encontrou de onde vinha o choro.

– Que criatura mais feia! – espantou-se Cecília.

– Pare! Não vês que ela se entristeceu? – Alertou Laura.

– Ei, pequena criatura maravilindana, por que choras? – Indagou Mercedes.

Ao ver que era observada a criatura tratou logo de mergulhar na água e afastar-se das meninas.

– Que querem? – perguntou ela.

– Queremos saber o motivo de sua tristeza, pois pensávamos que todos os maravilindanos vivam felizes. – explicou Laura.

– E o que é isso?

– Ora essa, os maravilindanos são todas as criaturas que habitam o rio Maravilindo, aqui, onde nos banhamos. – disse Laura.

– Penso que a inteligência não é o forte dela. – cochichou Cecília com a outra irmã.

– Pare de dizer asneira, menina. – respondeu ela.

– Eu ouvi o que disseste de mim! – vociferou a maravilindana. – Não me falta inteligência, apenas ela usara uma palavra desconhecida a mim, mas que agora já a conheço. – vangloriou-se.

As palavras da criatura do rio soaram como um canhão para a Cecília, que logo tratou de emburrar-se e transformar seu rosto na careta mais feia que já se viu.

– E você, pequena garotinha terrana, por que me chamas de criatura se me indicam por outro nome que não este? – provocou ela.

– Ora, agora mesmo, me chamaste de terrana e que importância eu dei a isso? – retrucou Cecília.

– Parem já as duas! – intrometeu-se Mercedes – Criatura-moça, pois creio que és jovem, apenas viemos para saber o motivo pelo qual derramava suas lágrimas, e não para criar desavenças. Portanto, desculpo-me em nome de minhas irmãs e digo-lhe que não mais a importunaremos. – a menina foi sincera em suas palavras.

– Pois lhes digo que não há problema algum. Não lhes julgarei menos inteligentes por não saberem a que tipo de criatura maravilinda eu pertenço, afinal, – sua voz foi perdendo o tom – esse o motivo do meu pranto era mesmo esse.

– O que queres dizer é que não se encaixa em nenhuma natureza de criatura? – Cecília quem falou desta vez, sem encrespar-se.

– Não eu, mas os outros seres. – um fino silêncio instalou-se – E não entendo os porquês pelos quais desprezam a minha existência. – e tornou a chorar outra vez.

– Por favor, senhora Criatura, não chores, afinal, todos precisam de um lugar no mundo… Ou no rio, como é o seu caso. – disse Laura acalentando-a.

– Olhem para mim, o que há de errado comigo para que me rejeitem viver entre eles?

De fato, nada do que elas viram se parecia com outras criaturas conhecidas. O rabo de peixe em lugar das pernas lembrava o de uma sereia, as quais já haviam conversado antes. Entretanto, suas escamas possuíam um tom arroxeado e formatos irregulares, que diferia do azulado das sereias.

Os cabelos nem de longe lembrava o das sereias, os fios desgrenhados com uma aparência disforme como os arbustos davam a ela uma aparência singular, diferente de tudo o que já haviam visto.

Seus olhos transmitiam tudo o que era, todas as emoções da frágil criatura ali se detinham, quem a mirasse por entre as deleitosas íris róseas saberiam de todos os sentimentos dela.

A beleza de seus dentes estava no formato, os mesmos que têm os espinhos das rosas. Dispunham-se em um arco perfeito, em número perfeito, pareciam fortes e agudos.

A pele, o fator mais relevante e evidente dentre todos. De um brilho perolado e intenso e a delicadeza quase a fazia um ser especilúnico, pois todo ser é singular, entretanto, não todos possuem a mesma especificidade.

– Não há nada de errado em ti, és um ser próprio, e mesmo conhecendo muitos dos seres que aqui habitam, digo-te que és a única que nos contagiou por meio de um desentendimento. – falou Cecília e todas riram.

– Porém, ainda não sabemos o que és. – lembrou Mercedes.

– Muitos me nomearam como um infortúnio da natureza, mas mamãe costumava dizer que eu era uma sereianha. – disse ela limpando as lágrimas. – contudo, me chamo Mair, pois quando fui apresentada aos indígenas eles assim me nomearam por conta da alvura de minha pele.

– Ó, que nome mais lindo! – suspirou Laura. – O que diante de tanta beleza poderia causar-lhes espanto?

– Minha história. – respondeu.

– E o que há com ela? – perguntou Laura.

– Antes de partir para as correntes do rio infindável, mamãe disse-me que fuigerada por dois peixes-piranha, que foram atacados por um predador, do qual apenas o meu ovo sobreviveu. Mamãe, compadecendo-se de minha situação decidiu me cuidar e com seus poderes modificar-me, a fim de que jamais pudesse ser caçada por seres ferozes. De fato, fui salva, mas apenas a Mãe de todas nós, a Natureza, faz coisas perfeitas, e por isso mamãe não me tornou igual a ela, porque seus poderes não puderam impedir o que dentro do ovo já existia de meus pais naturais.

A noite vinha com anseio de avançar, e as meninas puseram a se alvoroçar. “Vamos, meninas”, chamou Mercedes, e de um salto as irmãs estavam fora d’água.

Muito ainda aconteceu se quer saber, caro leitor. Desejos de felicidade, apertos, carinhos, e tudo que mais se pode fazer entre amigas. E no fim, todas se detiveram uma no olhar das outras, e conseguiram ver que tudo naquele crepúsculo de primavera fora fofuresco, no sentido mais afável da palavra:

O rio.

O silêncio.

Os abraços.

Os sorrisos.


CHAPEUZINHO TRAUMATIZADA, por Mademoiselle Papillon

Depois daquela visita à casa da vovó, Chapeuzinho Vermelho nunca mais foi a mesma. Andava triste, com medo de tudo, não queria mais sair de casa e nem conseguia dormir, pois tinha pesadelos horríveis com lobos que a devoravam. Passou por um longo período de depressão. Precisou de acompanhamento psicológico para melhorar.

– Então, Chapeuzinho… Quando começaram esses seus ataques de nervosismo?

– Já faz algumas semanas. Foi depois que eu voltei da visita à vovó, naquele dia.

– E o que aconteceu nesse dia?

– Bem… Eu estava andando pela trilha da floresta quando um lobo apareceu. Ele era enorme e peludo e… – estremeceu – Desculpe.

– Tudo bem. Pode falar.

Ela respirou fundo, para tomar coragem.

– Ele falou comigo, me perguntou o que eu estava levando na minha cestinha. Eu respondi que eram doces para a vovó. Ele ficou curioso e quis saber qual era o caminho para a casa da vovó. Sabe, na hora eu nem desconfiei de nada. Eu sou tão inocente! Então eu expliquei o caminho a ele, que quis apostar uma corrida comigo. Eu nem liguei muito. Continuei na trilha, distraída, olhando a paisagem, cantando.

– Espere um pouco. Você disse que o lobo FALOU com você?

– Falou sim.

– Você tomou alguma coisa antes de sair de casa?

– Não. Quer dizer, só o café da manhã. Pão e suco. Por quê?

– Por nada. Prossiga.

O psicólogo anotou no caderno: alucinação. Chapeuzinho continuou:

– Quando eu cheguei lá, eu reparei que a vovó estava um pouco diferente. A voz rouca, os olhos esbugalhados, a boca larga… Eu pensei que fosse por causa do resfriado. Perguntei por que ela estava assim tão mudada e aí eu descobri: era o lobo! Ele pulou para cima de mim. Eu corri, saltei a janela, desesperada! Fui procurar ajuda. Tinha um caçador ali perto. Ele me socorreu, voltou comigo até a casa da vovó. O lobo estava dormindo. O homem pegou um machado e abriu a barriga dele. Vovó estava lá dentro, vivinha! Fiquei tão aliviada! Depois deixamos o caçador se livrar do lobo, eu nem quero saber como… Graças a Deus ficamos bem. Mas eu nunca vou esquecer aquela cara do lobo, antes de tentar me devorar. Pensar que eu quase morri! Por um triz!

Ela estava pálida e suava frio. Eram memórias dolorosas. O psicólogo observava atentamente.

– E depois disso? Você voltou para casa?

– O caçador fez a gentileza de me acompanhar na volta. Nossa, eu estava um trapo! Mal conseguia falar, ainda não estava acreditando naquilo tudo. E mamãe… Ela nem percebeu, ela nunca percebe nada! Só reparou que o meu capuz estava rasgado na ponta, ainda brigou comigo! Reclamou também da minha demora, disse que o almoço já estava frio, um monte de coisas que eu não prestei atenção direito.

– Você contou essa história para ela?

– Contei. Mas ela não acreditou. – olhou para baixo, chateada.

– Fale um pouco mais da relação com a sua mãe.

– Não é boa não. Mamãe não me entende, não me ouve. Ela só quer saber dos afazeres dela. Só sabe dar ordens. Manda doces para a vovó, mas me obriga a comer legumes. Eu não acho nada justo. Desse jeito, vovó vai acabar ficando diabética! E por que eu tenho que levar as coisas para ela? Eu sou uma criança e mamãe me manda para a floresta perigosa, cheia de lobos! É muita falta de noção! Assim eu nem preciso de madrasta má.

– Então você acha que a sua mãe não se preocupa com você?

– Nem um pouco. É tão difícil! Mas eu disse a ela que não volto mais naquela floresta, se ela quiser que vá sozinha! E seria bem feito se o lobo a devorasse!

– Fique calma.

Ela suspirou e sussurrou um pedido de desculpas envergonhado pela exaltação.

– Não precisa se desculpar, é assim mesmo. Mas e com a sua avó, você se dá bem?

– Sim, eu gosto muito dela. Sempre vou visitá-la, só que agora… Depois do que aconteceu, eu tenho muito medo de sair de casa sozinha. E ela não pode sair da casa dela também, porque já está velhinha, então nós não nos vemos mais. É uma pena. Vovó me dá muitos presentes, ela costura roupinhas para mim e me dá doces escondido. Esse capuz vermelho foi ela que fez para mim. Na época, eu adorei, só que mamãe estragou tudo.

– Como assim?

– Porque eu usava muito, ela começou a me chamar de Chapeuzinho Vermelho e foi daí que surgiu esse maldito apelido! Agora ninguém mais sabe o meu nome de verdade! Sem o chapéu, ninguém me reconhece. Até meus colegas zombam de mim, é terrível.

O psicólogo anotou: bullying. Em seguida, perguntou:

– A sua avó não confirmou a sua história sobre aquele dia?

– Não. Na verdade, é complicado. Vovó já está no começo do mal de Alzheimer. Ninguém vai acreditar nela, mesmo que se lembre de alguma coisa. Entende a minha situação?

Houve um momento de pausa. O terapeuta releu suas anotações. Olhou para a menina e disse:

– Muito bem, Chapeuzinho… Ou seja qual for o seu nome.

– Não tem problema, eu já me acostumei.

– Vamos nos encontrar duas vezes por semana para conversar melhor sobre essas questões. Está bom para você?

– Tudo bem. Posso pegar um pirulito?


VANTAGENS E MENTIRAS, por Virginia Lispector

Senta aqui, não tenha tanta pressa ♫- vai, vai, vai, vai, vai, vai, vai, vai,
Se tu quer ver ela se acabar
Na boca dela taca wisky
Ela vai fazer uma coisa que nenhum homem resiste
Olha o que ela vai fazer:
– senta, senta, senta, senta,senta,senta vai
Senta firme, vai, senta firme

Celular ligado no alto falante do som ecoava alto pelo quarto e pela casa. Enquanto ouviam e ensaiavam alguns passos combinavam e experimentavam algumas roupas para sair à noite.



♫- Se tu quer ver ela se acabar
Na boca dela taca wisky
Ela vai fazer uma coisa que nenhum homem resiste♫- 

Ouvia música nas escadas da varanda de casa com seus amigos de bairro. Entre vantagens e mentiras contadas, ensaiavam passinhos do momento.

“Será que a Karen vai?”

“E se for? O que você vai fazer? Mesmo ela sendo facinho, facinho, tu é mó pega ninguém Duca!”

Eduardo se cala, sorri constrangido e parte pro ataque:

“Não foi o que sua mãe disse.”

A noite cai entre risadas, garrafa de cerveja passada de boca em boca e passinhos de dança. 

“Hoje vou comer geral! To numa fissura muleque!”

                                                                             …

“Hoje vou beber e dançar muito. Quero esquecer o babaca do Robson. Aquele escroto… Me traiu porque não quis dar pra ele…Isso é justificativa cara??

“Esquece isso e vamos curtir amiga!”

A noite cai em meio a passinhos de dança e cerveja. E finalmente alguns tops, vestidos da moda e micro shorts são combinados.


♫- Na boca dela taca whisky
Ela vai fazer uma coisa que nenhum homem resiste
Olha o que ela vai fazer:
– senta, senta, senta, vai
Senta firme, vai, senta firme♫

Eduardo observava Karen e sentia-se enleado. Estava hipnotizado com seus gestos alucinantes e corpo flamejante. O movimento de seu corpo em sintonia com a música só ressaltava suas curvas. Não sentia só tesão mas também certo carinho.

“E aí Duca? Não tem como não ficar de pau duro com uma mina dessas né não? A hora é agora! Olha só isso! Soltinha soltinha! Robson disse que ela é fácil, fácil… Vai cara, deixa de ser mané porra! É só chegar por trás!”

“Se tu não for eu vou hein!” gritou algum amigo seu.

A madrugada passa entre vantagens e mentiras contadas.


Finalmente Eduardo toma um gole da bebida e parte pra cima timidamente. Karen sente alguém atrás e continua a rebolar. Ela o atiça. Ele esquece a timidez por um momento e como se não houvesse ninguém ali fazendo o mesmo, a provoca. Beijam-se ainda dançando no ritmo da batida. Vão para um lugar do baile mais reservado. 

Continuam com os beijos e  mãos de ambos vagueiam como se fossem exploradores em terra estrangeira. Karen sente um  prazer imenso. Suas mãos, assim como sua boca, também eram errantes e vagueavam pelos traços do corpo de Eduardo.

Em certo momento sente que chegou no seu limite. Não queria passar daquilo. Queria voltar pra pista. Só queria curtir. Tenta inutilmente se desvencilhar de Eduardo.

“Chega… chega Eduardo… Quero voltar pra pista…

Sua boca continua a passear, suas mãos continuam a vaguear… Preparava-se para  explorar o que para ele ainda era desconhecido… Ele quer parar… Ele vai parar…

“Tá bom, tá bom… Sem problemas…” ele diz ofegante. Afinal gostava dela. Também queria curtir a pista e outras meninas. No fundo, mesmo não querendo admitir nem para ele mesmo, não se sentia preparado…

Ela se arruma, ajeita o batom e se despede com um beijo em seu rosto. Enquanto se preparava para ir embora, vozes surgem em sua cabeça. Vozes de seus amigos, vozes de seu pai… vozes, perguntas e zoações ecoavam em sua mente.

“E aí comeu?”

“Senão comer essa é porque tu é um broxa mesmo!”

“Se quiser pago uma mulher pra tu filho!”

♫- Ela ja ta sentando firme
Ja bebeu mais um wisky
Boto tudo pra ferver♫
Boto tudo pra ferver
Boto tudo pra ferver 

Num rompante, a segura firme. Agarra Karen de forma violenta. A joga na parede furiosamente. Sua luxúria não é movida somente por desejo mas também por raiva. Também por opressão. Por certo revanchismo talvez. Tentava se justificar em vão. Não se sente bem com o que estava fazendo, mas ♫ ela ta loca… continua com sua fúria…NÃOOOO… POR FAVOR… PARA EDUARDO… ♫ ela ta chapada  continua com sua violação… VOCÊ ESTA ME MACHUCANDO EDUARDO… mas continua, continua e continua. 

No ápice do prazer (será que teve?) joga Karen no chão, fecha a braguilha e vai pra pista.

 “E aí, comeu?”

E a  madrugada passa, o sol nasce em meio a risadas, deboches,vantagens e mentiras contadas.

MESSIAS, por Aurora Santiago

Da boca afogada pelo medo e pisada pela seca, ouvia-se apenas o silêncio. Dos olhos calados pelas crendices e bêbados pela esperança, não vertia uma lágrima sequer. Tornaram-se secos com o passar dos anos, secos como aquela terra maldita, profanada em outros tempos.

Desta terra não brotava água, e as plantas que nasciam dela eram de gosto amargo. Era a chuva que sempre tardava a vir, de um céu que se zangou com aquele povo. Tamanha era a desgraça que assolava aquela gente, que não restou outro remédio. Se os céus estavam irados, o jeito era dar aos céus o que de melhor havia naquela terra.

Era assim todas as vezes que a lua cheia aparecia por completo no céu. Bastava cair a noite. A lua, totalmente despida das nuvens, cheia, trajada apenas com sua grandeza, anunciava e o povo compreendia que os céus tinham fome.

As bocas, afogadas pelo medo e pisadas pela seca, entoavam um cântico. Todos reunidos em círculo, num só propósito, num só espírito. Os homens de pé, com os olhos erguidos aos céus, cantavam. As mulheres e crianças, com a boca posta à terra, faziam suas preces.

Quando do norte se ouviam os tambores, os cânticos cessavam. Eram as oferendas que vinham para o sacrifício. Ao centro do círculo, os sacerdotes se alinhavam. Duas vítimas para que dos céus descesse a chuva vindoura.

Vinha primeiro a virgem, de mãos amarradas e olhos vendados. Vinha a passos teimosos, porém obstinados. Desses de quem, sabe-se lá Deus porque, aceitou de bom grado o destino que lhe foi imposto pela vida. Mesmo quando a vida lhe impõe a morte.

Vinha depois o bebê, carregado por um ancião de barba espessa e olhos miúdos. O bebê tinha de ser menino, forte, sem defeitos no corpo, para que os céus recebessem, com bons olhos, aquele sacrifício. Vinha nu, ao mundo viera assim, e assim teria de deixá-lo.

O bebê era posto com cuidado sobre a palha seca, a virgem despida de seus vestidos. Mostrava agora seu corpo cru, nunca antes tocado por homem algum, agora e jamais tocado por quem quer que seja. A virgem depois de despida era amarrada ao tronco. Sentia na pele a sequidão daquele tronco, compreendia que a causa justificava o efeito. A virgem teve seus olhos desvendados, viu sua gente com a boca afogada pelo medo e pisada pela seca. Viu seu povo com os olhos calados pelas crendices e bêbados pela esperança. De relance olhou o bebê que ainda chorava. Os olhos oblíquos da virgem deliberadamente choraram também.

Quando viu o ancião de barba espessa e olhos miúdos se aproximando com a tocha em mãos, o pranto tornou-se grito e o corpo tornou-se úmido. Eram seus poros reclamando o destino trágico que só agora consegue ver, era sua carne e seu sangue desatando os olhos do espírito cego. A coragem fugia-lhe pelas lágrimas, as lágrimas misturavam-se com o suor, que vinham a molhar o tronco e descer a terra. O corpo teimoso se pôs a tremer. O espírito decidido escorregou no sangue. Tornou a olhar o bebê que agora já não mais chorava.

O ancião deitou o fogo à palha seca e o fogo consumiu os mártires. Seus gritos eram surdos. O que berrava naquele momento era o silêncio daquele povo. Impassível e ensurdecedor.

As vidas da virgem e do bebê subiram aos céus com cheiro de cinzas e gosto de fumaça. O sacrifício estava consumado; o caminho da luz cega havia sido percorrido.

Ninguém podia dormir até o raiar da aurora. Tinham de entoar os cânticos que foram ensinados de geração a geração. Depois, todos voltariam às suas tendas, e jejuariam durante todas as horas do dia vindouro. Assim procediam sempre. Não se sabe se todos cumpriam os rituais por fé ou por medo. O que se sabe, é como tudo isso começou, e como tudo terminará.

Sabe-se da origem de tudo e do fim de tudo; pela habilidade (até hoje, peculiar aos homens) de perpetuar histórias, verdadeiras ou falsas, com o passar dos tempos. E de fato, é bem comum que os anos tornem verdade aquilo que outrora fora mentira, apenas dizendo, afirmando e até jurando quantas vezes for necessário, para que aquilo que se ouviu se passe adiante.

O que sempre se ouvia daquele povo é que há algumas centenas de anos aquela aldeia era, dentre todas, a mais próspera de que se tinha notícia. A eles nada faltava, seja a comida, seja a água, seja a chuva, seja o sol. Os céus sempre abençoavam aquele povo, em troca a aldeia oferecia aos céus seus melhores animais e seus melhores frutos da terra.

Ao cabo de algumas décadas, a ganância entrou ao coração daquele povo pela linhagem dos Nazir, belos e fortes, era a família mais próspera de todas. Quis então, Edimião Nazir, patriarca da linhagem, não oferecer aos céus o seu sacrifício a fim de enriquecer ainda mais. Vendo isto, o povo se corrompeu. A ganância dos Nazireus espalhou-se por todas as famílias e, em poucos anos, os sacrifícios foram esquecidos. Os céus se iraram e desde então conta-se que a desgraça da seca e da miséria assolou aquele povo.

Passaram-se os anos, e eis que surgiu um homem que mudaria este enredo. Chamava-se Horácio Baltazar. Contava vinte e cinco anos quando o primeiro filho de Horácio nasceu, era menino forte e saudável. Pois, este mesmo Horácio, sacrificou o próprio filho, rogando aos céus que a chuva trouxesse vida ao povo. Era noite de lua cheia quando o herdeiro dos Baltazar queimava. No mesmo instante, do céu vieram às primeiras gotas, e logo em seguida, a chuva espessa, produzindo lama e fé. Ali ficou instituído o sacrifício aos mancebos.

Quanto às virgens, ninguém sabe ao certo quando e como começaram a ser sacrificadas. A interpretação mais aceita é a mais lógica. Se os céus se alegram com um mancebo, se alegrariam ainda mais com um mancebo e uma virgem.

Entretanto, haverá um tempo em que não mais precisarão os homens e as mulheres daquele povo sacrificar seus herdeiros e suas virgens. Diz a profecia, que antes do fim da vida de Horácio Baltazar, os céus enviarão um Messias e Ele trará em sua mão direita a fonte da água e em sua mão esquerda o ouro. Virá do norte para restaurar os tempos de paz.

Nos tempos de agora, Horácio Baltazar já era ancião. Vegetava sobre sua cama e há dez anos não sai de sua tenda, somente os doze sacerdotes podem entrar à sua presença. Este Horácio, que luta incansavelmente contra aquela que é a mais implacável guerreira desde o início de tudo (leia-se morte), contava cento e três anos quando o ultimo sacrifício fora realizado.

Os céus não se alegraram com o ultimo sacrifício, aquele que testemunhamos logo às primeiras linhas deste relato. Depois daquele dia, a chuva não veio. E as regras estavam escritas e por todos eram conhecidas. Se os homens enviavam um sacrifício aos céus, e dos céus não desciam a chuva, o orvalho, a temporã e a serôdia, era porque algo havia de errado na linhagem dos sacrificados.

Seja por pecados encobertos de seus pais, seja simplesmente por serem descendentes da linhagem amaldiçoada dos Nazireus, não importando o que fosse, a maldição precisava ser aniquilada. E se os céus não se agradavam daquele sangue, a terra haveria de se agradar.

Ao raiar do terceiro dia, todos estavam reunidos em círculo de novo. Ao centro do círculo, as covas já estavam prontas, eram fundas, eram frias, vazias, gritavam por seus novos hóspedes. Os tambores tocaram. De longe vinham os amaldiçoados.

Seus pulsos traziam cordas espessas. Suas costas, as marcas do açoite. Eram eles o pai e a mãe do bebê. O pai, a mãe e os dois irmãos da virgem. Os pais da virgem olhavam para o tronco queimado e choravam. Os irmãos da virgem olhavam para as covas abertas e choravam. Os pais do bebê olhavam um para o outro e também choravam. Sem anestesia, cada um foi arrastado à sua sepultura. A terra lançada se encarregou de encobrir os gritos.

Após o rito fúnebre, a sorte foi lançada pelos sacerdotes. Seriam agora escolhidos os próximos a serem sacrificados. Os olhos resignados tentavam em vão, esconder o medo, já que as bocas caladas denunciavam o sofrimento. A sorte lançada escolheu o único filho da família dos Pompeu. Contava ele seis meses de vida naqueles tempos. Em seguida, os olhos se voltaram para todas as moças que ali estavam de pé. A sorte foi lançada novamente e a virgem escolhida chamava-se Sara, da linhagem dos Xavier. Contava ela vinte anos naqueles tempos. Era visível o alívio das famílias, cuja sorte encarregou-se de livrá-los da morte. Era também visível o pesar refletido nos olhos daqueles que foram sentenciados à glória do martírio. Porém, os olhos de Sara refletiam outra coisa, que somente o ancião de barba espessa e olhos miúdos conseguiu discernir. Agora via com clareza, pois não somente os olhos, mas todos os poros de Sara expeliam uma revolta silenciosa.

Por dias, Sara Xavier esteve calada e com olhos vagos. Andava às introspecções do espírito. Quando saía de sua tenda, era sempre alvo dos olhares de chumbo, e das línguas de navalha. Andavam a sussurrar coisas a seu respeito, sem saberem que os sussurros são mais venenosos que os gritos. Os familiares de Sara olhavam-na com culpa e com admiração. Sara, por sua vez, olhava-os com acusação e silêncio.

Para esta que era virgem do corpo e mártir da fé, os dias passaram como uma goteira contínua sobre um caldeirão escaldante já à borda. Apesar do silêncio, mais dia menos dia, o caldeirão deitado a fervura fria terá de transbordar.

Assim foi. A noite vinha caindo, era a ultima noite antes do sacrifício. Sara estava deitada em sua tenda, porém tinha seus olhos abertos. Olhava para cima, repassando, por vezes, tudo que havia planejado. Bastariam as tochas se apagarem por completo para enfim começar a agir. Eram dez da noite quando as tochas foram apagadas e a aldeia se pôs a dormir, restando, do lado de fora, os vigias da tenda de Horácio Baltazar e alguns bêbados sôfregos.

Sara saiu de sua tenda sorrateira sem ser notada. Apesar de ter o espírito aos galopes, fazia cada movimento com cuidado. Em poucos segundos, chegou às portas de seu destino. Conseguiu se esconder por de trás de uma pedra, dali aguardando com ansiedade e frieza o momento certo.

Era a tenda de Horácio Baltazar guardada por dois sacerdotes. Ficariam ali por toda a noite como sentinelas e Sara tinha a certeza que, mais hora menos hora, iriam pestanejar. Eram anciãos, tinham de pestanejar. E ela aguardaria o tempo que fosse. Era sua única esperança de escape do destino trágico. Seria uma lei desobedecida por uma boa causa. Caso de o fim justificar os meios; os céus compreenderiam.

Demorou em torno de duas horas para o primeiro dos sacerdotes cair em sono, poucos minutos depois o outro seguia o mesmo destino. Sara tinha os olhos atentos e, ao perceber o baixar da guarda de seus adversários, avançou, e agora já dentro da tenda, teria de se esconder até Horácio despertar e, finalmente, a virgem pedir clemência e misericórdia da morte certa. Não houve tempo para tanto, pois o que os olhos de Sara contemplaram ali, tornou a garganta seca e a língua muda.

Ao centro da grande tenda, o corpo do ancião jazia deitado e descoberto. Sara, deitada ao chão com a boca posta ao pó da terra, demorou a digerir o que os olhos viam. Porém bastou alguns segundos passarem para finalmente compreender. Foi lentamente se arrastando para próximo do ancião; parou por ter esbarrado em uma tigela com bálsamo, porém a distância já lhe bastava. Sara tapou a boca com sua mão para não gritar. Deitado ali, Horácio Baltazar jazia morto, mumificado por mortalhas e embalsamado.

Magra e esguia que era, Sara saiu sem fazer barulho, os sacerdotes ainda dormiam. Quando já estava distante, tropeçou em si mesma, e vomitou qualquer coisa ao chão. A imagem de Horácio Baltazar morto ainda era presente. Escutava agora a voz de seus pais e dos pais de seus pais contando-lhe a mesma profecia. “Pois antes da morte de Horácio Baltazar, chegará o messias, trazendo a fonte das águas em sua mão direita, e em sua mão esquerda o ouro, e os tempos de paz reinarão”.

Em instantes, os gritos de todas as virgens e mancebos sacrificados a deixaram surda. Caiu de joelhos sobre a terra seca e chorou. No choro a lucidez e a coragem voltaram a seu espírito. Levantou-se e caminhou decidida à tenda do mancebo que seria sacrificado. Seja por ajuda divina ou por vontade do destino, o mancebo continuou dormindo profundamente quando a virgem Sara o tirou da manjedoura onde dormia e o pôs em seus braços.

Já estava longe da aldeia de seu povo quando seus pés reclamaram do trabalho exaustivo, porém o medo de ser encontrada por sua gente e o amor pelo bebê que dormia em seus braços, a fizeram andar mais. A noite pesava-lhe no peito quando, de longe, a moça avistou um homem vindo no lombo de um jumento.

Os gritos de socorro fizeram o homem mudar seu curso e vir em sua direção.

– Que passa, minha senhora?

– Peço-te ajuda, não tenho para onde ir. Por favor, imploro por ajuda.

A virgem se ajoelhou com o mancebo nos braços, o homem saltou do jumento e levantou a moça.

– Não tenho para onde ir meu senhor, me leve como sua serva.

– Não te quero como serva – responde rispidamente o homem.- Então ao menos me leve a qualquer lugar que tenha abrigo e água para que eu e meu filho não morramos neste deserto.

– E onde está seu marido, forasteira?

Sara tentou responder qualquer coisa que ficou atravessada na garganta. As lágrimas então brotaram-lhe dos olhos. O homem subiu de volta em seu jumento e, sem olhar para a moça, estendeu a mão. Pelo resto da noite cavalgariam juntos. Durante o caminho, o homem só fez uma pergunta.

– Mulher?

– Sim meu senhor.

– Qual é seu nome?

Sara sentiu um calafrio subir-lhe a espinha, cogitou a hipótese de correr a notícia de uma certa Sara da linhagem dos Xavier que fugira com um menino que não era fruto de seu ventre, por ser ela virgem. E que por causa de sua insolência, sua aldeia foi condenada a esperar o Messias por mais umas centenas de anos. Decidiu então trocar de nome dali para sempre. Teria de ser um nome simples, que não levantasse qualquer suspeita. Respondeu então:

– Maria é meu nome, meu senhor.

Os três continuaram seguindo o caminho incerto, com a noite pesada sobre suas cabeças. Naquela noite não se podia ver a lua, pois o céu estava encoberto de nuvens. Via-se apenas uma estrela que brilhava no oriente e as nuvens anunciando que a chuva estava a caminho.

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